O SAPO CURURU
Não me lembro da primeira morada da minha vida. Com três anos de idade, após transferência do pai militar navegamos (sim, viemos de navio!) do nordeste para o sul do Brasil. Foram mais de quinze dias brincando pelo convés com meus irmãos mais velhos, a fim de não sucumbir na cabine com a mãe grávida vomitando o quarto filho e a alma toda, tanto quanto as ondas e as tempestades recorrentes. Após essa cansativa travessia até Porto Alegre pegamos um trem para Santa Maria, onde o encantamento e o fascínio começaram a brotar na minha existência. A paixão pelo universo ferroviário e a conexão com a Maria Fumaça, minha fiel escudeira e companheira de viagens nas centenas de idas e vindas à residência dos avós.
A casa era muito simples e de madeira.
Ali no pequeno espaço dividido entre cinco moradores, avós, tias e tio,
acomodaram mais um casal e três crianças pequenas. Acampamos na sala. Lembro
perfeitamente da divisão dos cômodos e da cozinha, mas o que me encantou foi o
pátio externo dos fundos com um balanço que o avô ferreiro construiu para
receber os netos. Era mês de julho e devido ao frio, chuva e poças de lama não
podíamos usufruir com infinidade desse deleite. Até o dia que meus pais tiveram
que se ausentar para procurar apartamento na capital. Ficamos os três ali na
supervisão dos adultos, mas sem compreender muito tantas regras e disciplinas.
O mais velho burlava a todos, mas eu e o do meio cochichávamos incertezas e
medos. Ele praticamente só me acalmava, pois eu mal falava. Ele e a minha
chupeta salvadora. Pendurada nos meus pequenos lábios, ansiosa e triste, sem
compreender direito a separação e o abandono materno, ela serviu como minha
válvula de escape e porto seguro. Aos poucos com passinhos serelepes e ágeis
conseguia transpor as barreiras até o balanço e quando viam eu estava lá, só no
vaivém e enfrentando o olhar reprobatório da minha avó. Nunca os havia visto.
Avós e tias eram totalmente desconhecidos para nós e acostumar a culturas
diferentes, falas secas, padrões rígidos e cismas eram muito contraditórios
para a nossa tenra idade e compreensão. Até que começaram as ameaças:
- Olha, se tu não me obedecer o sapo
cururu vai te pegar!
- Vou chamar o sapo cururu!
- Se tu fizeres xixi na cama o sapo cururu
vem pegar teu lençol!
- Não me chame de “você” nem de “mãinha” que
eu chamo o sapo cururu!
- Não vai largar a chupeta?...Pera aí que
vou chamar o sapo cururu para levar!
Não acreditava em nada que ouvia e
continuava a desafiar. Nem sabia o que era sapo cururu. Eis que numa noite fria
corro descalça pelo terreno encharcado a fim de aproveitar a gangorra confidente.
Assim que sentei no banquinho gelado pelo sereno o avistei. Ele estava ali,
enorme, na minha frente me encarando. Não conseguia respirar, mexer, balançar,
nada. Paralisada de terror!...Era o bicho mais feio e enorme que havia visto na
vida. E ele me encarava. Com os olhos esbugalhados parecendo sair das órbitas e
uma cor estranha esverdeada e sujo de lama. Tentei colocar o pé de leve no chão
ameaçando uma fuga e ele se aproximou mais. Eu mexia, ele andava. Eu
acompanhava seus passos cada vez mais próximos e o coaxar cada vez mais alto
nos meus ouvidos. Até que ouvi um “não te disse que ele vinha?” vindo não sei
de onde. Nunca mais vou me esquecer do terror que se abateu sobre mim. Como num
passe de mágica pulei do balanço, joguei a chupeta em cima dele e disse:
- Toma. Pode ficar! Não quero nunca mais! Leva!
E correndo como se não houvesse destino e
amanhã fui atravessando à cozinha, os quartos, a sala, a porta da frente, o portão,
acelerando mais ainda pela rua, com os pelos e cabelos em riste e gritando por
socorro. Foram quilômetros para perninhas de menos de um metro. Alcançaram-me
na estação ferroviária aguardando minha nostálgica companheira Maria Fumaça,
tentando reconectar e evocar minha memória afetiva. Desde a chegada, aos
movimentos dos trilhos, o som, o vapor, o apito...

Texto envolvente!
ResponderExcluirObrigada Elisa!
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