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Mostrando postagens de novembro, 2025

O PESO INVISÍVEL

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                            Laura acordava todos os dias às seis e quarenta e cinco. Tomava café olhando as notificações do celular, respondia mensagens e às sete e meia já estava conectada. Nunca soube quando começou a viver no automático, talvez tenha sido quando o dia se transformou em tarefas concluídas. A pandemia havia terminado há algum tempo, mas o isolamento ficara como uma sombra: corpo em casa, mente na empresa. Cada um na sua tela, cada voz ecoando dentro dos fones. A mesa virou escritório, o sofá virou refeitório e a imagem refletida na câmera uma espécie de janela para o mundo. Os colegas pareciam existir só do pescoço para cima, o resto, o que era humano, ficava de fora. Falava com dezenas de pessoas por dia, todavia nenhuma estava de fato presente de corpo e de espírito. Ela gostava do que fazia, mas sentia uma espécie de vazio difícil de nomear, uma espécie de cansaço de um silêncio que se instal...

AS CAUSAS IMPOSSÍVEIS

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          Minha mãe não era de abraços. Tinha a voz firme, o olhar severo e uma fé que parecia estar sempre à beira do sacrifício. Falava muito, alto, discutia, gritava e, quando não suportava a pressão, batia a cabeça contra a parede. Vivia repetindo frases prontas: “Deus escreve certo por linhas tortas”; “Deus ajuda quem cedo madruga”, “Deus dá o frio conforme a roupa”. E eu, pequena curiosa, tentava decifrar toda essa providência divina e misteriosa.         Abdicou da profissão quando o primeiro filho nasceu. Carregava isso como uma condição de renúncia, não apenas da vida laboral, mas de todos os seus desejos e ambições de forma involuntária. Depois vieram cinco outros filhos, em intervalos curtos, a cada retorno do pai a casa. Deu a cada um o nome composto de um santo, numa espécie de homenagem, devoção ou até de esperança de que pudéssemos seguir os passos de fé sagrados: José, Ávila, Teresa, Maria (com repetições). Eu fiqu...