AS CAUSAS IMPOSSÍVEIS
Minha mãe não era de abraços. Tinha a voz firme, o olhar severo e uma fé que parecia estar sempre à beira do sacrifício. Falava muito, alto, discutia, gritava e, quando não suportava a pressão, batia a cabeça contra a parede. Vivia repetindo frases prontas: “Deus escreve certo por linhas tortas”; “Deus ajuda quem cedo madruga”, “Deus dá o frio conforme a roupa”. E eu, pequena curiosa, tentava decifrar toda essa providência divina e misteriosa.
Abdicou da profissão quando o primeiro filho
nasceu. Carregava isso como uma condição de renúncia, não apenas da vida laboral,
mas de todos os seus desejos e ambições de forma involuntária. Depois vieram
cinco outros filhos, em intervalos curtos, a cada retorno do pai a casa. Deu a
cada um o nome composto de um santo, numa espécie de homenagem, devoção ou até
de esperança de que pudéssemos seguir os passos de fé sagrados: José, Ávila, Teresa,
Maria (com repetições). Eu fiquei sendo Rita de Cássia, a santa das causas
impossíveis. Ela escolheu esse nome com um ar de profecia. Fez promessa e tudo.
A avó materna veio morar conosco no sul
quando o peso ficou grande demais. Era uma mulher de estatura média, mãos
calejadas, criada na roça e neta de escravas. Não negava serviço. Nossa casa
cheirava a feijão no fogo e roupa lavada à mão pendurada no varal. As duas formavam
uma espécie de tropa militar silenciosa: cozinhavam, lavavam, passavam, costuravam
e educavam. O pai viajava períodos longos em campanhas operacionais com o
Exército e, quando chegava sóbrio, o riso e a brincadeira corriam soltos,
matando as saudades da ninhada. Mas quando o cotidiano retomava seu peso e o
álcool afogava seu tédio e fraquezas, assim que começavam as reclamações da mãe
e da avó suplicando por socorro, aconteciam os castigos e surras de cinto de
couro e o silêncio obediente dos corpos encolhidos prevalecia. A mãe não o
enfrentava. Fechava os olhos, chorava, rezava, esperava passar. Depois recolhia
os cacos com aquele jeito resignado de quem já nasceu em penitência.
Obrigava-nos a assistir missa todo
domingo. A pedir benção aos mais velhos, a seguir procissões e romarias, a
beijar o Senhor Morto na Sexta-feira Santa, a não cantar nem ligar rádio e
televisão no Dia de Finados. Todos os seis filhos foram batizados, fizeram
catequese, primeira comunhão e crisma. Quinze anos de cada filha foram
comemorados com missa e festa posterior no pequeno apartamento recém alugado no
Rio de Janeiro, com muito esforço e boa vontade. Enfeites de embalagens de
ovos, bolo e fotografia doados por algum parente e álbum de recordações, esse
não poderia faltar. Nos meus quinze anos comemoraram Bodas de Prata, mas não
ganhou o sonhado anel. O pai nem se lembrava do dia do casamento.
Ela
temia a morte, embora vivesse como quem a pressente. Falava dela como quem teme
uma visita indesejada. Havia nela uma pressa ansiosa, uma espécie de destino
predestinado. Ficava cada dia mais devota, rezando muito, talvez conversando e
rogando a Deus, calculando o seu tempo após a notícia do câncer, talvez
imaginando como seria a vida dos seus filhos sem ela. Mas a morte veio cedo,
sem pedir licença, sem ouvir as preces divinas, como tudo que lhe aconteceu.
Tinha apenas 50 anos. Foi rápida - uma fratura de colo de fêmur, uma internação
sem condições cirúrgicas e somente cuidados paliativos, uma extrema unção.
Nessa hora, chamou pela mãe. Um velório de flores brancas e promessas
que ninguém mais lembra se cumpriram.
A casa se encheu de silêncio, meu pai
chorou e bebeu. A avó fechou as cortinas e o rádio. Meus irmãos se desesperaram
igualmente. E eu, com meus poucos anos de maturidade, fiquei refletindo sobre o
nome que ela me dera, tentando entender o que era “impossível” afinal. Seria
sobre a fé que não consola? O amor que não se mostra? Ou do medo de me parecer
com ela?
Hoje, quando penso nela, vejo um altar
invisível dentro de mim. Um altar sem ouro, feito de sacrifícios, medo e amor
não dito. Minha mãe foi santa sem canonização, mártir sem aplauso. E eu, filha,
Rita de Cássia, aprendi cedo que fé também pode ser outra forma de dor.

Rita escrever sobre a mãe penso, deve ser algo bem difícil. Eu que tive o prazer e a honra de conhecer tua mãe, ao ler, mesmo sabendo ser ficção, senti a presença dela. Nunca tinha pensa no teu nome em homenagem a santa e nem sabia que era a Santa das causas impossíveis. Penso que tu és uma pessoa que está sempre indo em busca de utopias. Atinge e já tem ali um novo desafio . A dé para mim cem sem o peso da dor, mas do acolhimento. Penso que sem ter fé não teria ido a lugar nenhum. Eé com a fé é como se levitasse . Agora amiga a escrita é vem isso a perspectiva de nós vermos e sentirmos maduras. De cauterizar feridas das diferentes fases de nossas vidas.
ResponderExcluirObrigada amiga...pela compreensao da profundidade!
ExcluirUma recordação passou pela minha mente,já que convivi com sua mãe,avó e pai.Não lembro mta coisa,mas lembro do jeito interioranas de gente sem disfarces,sem verniz.Gostava do jeito Franco e simpático.A fé às movia.E mta gente prefere deixar seu destino em mãos santas,à ter que arregaçar as mangas e dirigir sua vida.Os tempos são outros,as inspirações tbm.Continue escrevendo.De repente vc está inspirando outras pessoas. Bjs
ResponderExcluirObrigada querida amiga...vc faz parte dessa história!...
ExcluirA vida era mais difícil e sacrificante tempos atrás. Ter perdido a mãe pro câncer ainda com tanto por viver deve ter sido muito duro para vc e seus irmãos. Perdi meu pai da mesma forma, mas tinha apenas 7 anos. Coisas da vida, do destino de cada um. Muito emocionante o seus texto.
ResponderExcluirSim, amiga...mas a vida ensina...com suas dores, dissabores e alegrias!
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