IMPULSO

       Depois daquele dia, Anita nunca mais foi a mesma. Sabia que por mais que quisesse voltar atrás não conseguiria. Havia se transformado... Ficou a pensar por uns momentos aonde a tênue linha da percepção do início e do fim de todo esse processo teria começado ou terminado, ou melhor, dizendo teria sido reconstruído.

         Desde criança sempre teve uma curiosidade peculiar, uma esperteza astuciosa e uma imaginação pra lá de fértil nas suas brincadeiras pueris. A informação não precisava chegar com absoluta certeza dos fatos geradores ou causais, pois Anita antecipava suas conclusões com sabedoria nata de pessoa muito vivida e experimentada. Às vezes riam dela, caçoavam, outros mais velhos contestavam sua precocidade, mas a maioria e principalmente seus avós e pais reprimiam qualquer tipo de sugestão ou manifestação a respeito. “De onde já se viu?”... ”Menina de família!”... E castravam-na ou com um breve e curto “Cala essa boca!” ou com uma boa surra repleta de palmadas e chicotadas bem dadas e marcantes.

           Assim Anita foi perdendo seu viço, ficando cada dia com mais medo de expressar seus sentimentos, as certezas viraram dúvidas e as inúmeras perguntas sem respostas seus anseios. A fantasia deu origem ao pânico e ao pânico deu-se origem à fuga... Fugindo não poderia experimentar as sensações de palpitação, taquicardia, faltam de ar e inquietude, estas responsáveis por várias idas ao pronto-socorro. Preferiu não tê-las não sentindo mais emoção, nem confiança em si mesma e nem mesmo a compaixão de si para si... Desistiu de viver! Se não pudesse imaginar, sonhar, ter e possuir de forma integral a real e vital necessidade a vida não teria mais sentido. Parou de comer, de beber, ficando doente, depressiva e se esvaindo aos poucos para desespero dos familiares e amigos que não conseguiam fazer nada para mudar esse quadro a não ser rezar. Torporosa e em profunda analgesia mórbida teve um lampejo das longínquas e primeiras descobertas, como se estivesse em um sonho: do banho de rio sem roupa com os primos, das brincadeiras de médico e enfermeira, dos beijos inocentes roubados em baixo da escada, das espiadas pelos basculantes e dos corrimões e gangorras do certo e do errado, do céu e do inferno, do prazer e do pecado... E antes do suspiro derradeiro finalmente percebeu: Eu conheci o DESEJO!... Seus olhos se abriram milagrosamente.

 

 

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