NEM TUDO É O QUE PARECE SER
Estava tudo sob controle. Não poderia
haver nenhum erro. Miguel tinha planejado e arquitetado tudo nos mínimos
detalhes. Era simples: zeraria a prova de Matemática, arrumaria uma briga com
algum colega, destrataria o professor e seria expulso da escola. Aquele sonho
de estudar num colégio católico e principalmente de freiras não era dele e sim
de seus humildes pais que só desejavam o melhor para ele, conforme não cansavam
de repetir, e conseguiram a muito custo à bolsa de gratuidade. Mas Miguel tinha
outros sonhos, outros interesses, outras ambições Em ordem de prioridade ser
jogador de futebol e por último, claro, estudar, principalmente Matemática que
nunca foi o seu forte. As exigências eram muitas para que ele fosse quem nunca
quis ser: um almofadinha, um filhinho de papai mimado, um malandrinho da zona
sul da capital, como julgava que fossem seus amigos de classe sempre que lhe
submetiam a bullings, desnecessários por sinal. Por questões geográficas morava
em Ipanema, ao lado de prédios luxuosos, mas no Morro do Cantagalo, subindo e
descendo todo dia com a visão panorâmica da natureza, do mar e da triste
realidade em que vivia. E hoje era o grande dia! Se tudo corresse bem estaria
na hora certa e no lugar exato pontualmente com a certeza absoluta de sua
conquista, ou melhor, de sua vitória.
Naquela manhã não reclamou ao se levantar,
inclusive antes do despertador. Tomou banho e se arrumou com esmero. Tinha que
causar uma boa impressão para que o seu plano fosse perfeito. Até escovou os
dentes e saiu com um brilho e um sorriso no rosto. Rotina normal de entrada de
escola: carimbar caderneta, passar pelo corredor da morte aonde lhe davam
rasteiras e tapas e ir para a sala esperar o professor. Nunca achou que esse
tempo fosse tão demorado, a impaciência lhe corroía os pensamentos. “Preciso me
acalmar”, refletiu. Fingiu tranquilidade assobiando desordenadamente o que
rapidamente ocasionou uma gargalhada geral.
- Vejam só pessoal, a cotovia tá
anunciando o dia ou será o prenúncio da sua morte? – gritou o valentão famoso,
seu principal inimigo. “Um dia você vai se arrepender de ter nascido”,
resmungou com o seu mais profundo sentimento. O pensamento foi interrompido com
a entrada do professor.
- Separem as carteiras, pulem uma fila,
papel e lápis na mão. Vai começar a prova final!
“Precisão matemática” pensou conforme
conhecimento de causa da figura inigualável do catedrático com seus óculos
pendentes no nariz, observando a turma se organizar por cima do mesmo. As
provas foram distribuídas. Miguel nem se dignou a ler. Só preencheu seu nome a
data e ficou ali olhando para o papel esperando o momento exato, sem sequer
fazer um rabisco. Começou a suar, a sentir a palpitação do coração, a tremer
ante a possibilidade de um fracasso. Esperou os primeiros quinze minutos
conforme as regras para o tempo mínimo de execução da prova e levantou-se
rapidamente para entrega-la. Foi seguro e confiante, pois tinha certeza de que
o seu inimigo número um faria alguma coisa para importuná-lo e era só arrumar uma
rápida confusão. Só não contava com o fator surpresa. O adversário esticou a
perna na lateral da mesa fazendo com que ele tropeçasse e caísse estatelado no
chão. Risadas estrondosas se ouviram enquanto sua mente ia registrando uma dor
lacerante no joelho direito. Levantou-se
tão rápido quanto caiu e partiu para cima do causador do seu estrago. A raiva
cegava seus olhos e ele só parou de bater quando foi segurado pelo professor
que ao fazê-lo também foi vítima de alguns golpes de soslaio.
- “Os dois para a Enfermaria. Depois nos
encontramos na Direção!” Gritou o mestre chamando um inspetor para
acompanha-los e continuou na sua função de fiscalizador.
Miguel mal conseguia andar. O
desafortunado colega estava com os olhos vermelhos, inchados e o nariz
sangrando. A Enfermeira teve bastante trabalho para coloca-los em condições
favoráveis ao julgamento final na sala da diretora. Limpou os ferimentos,
colocou gelo nas lesões, fez os curativos e uma imobilização no joelho do
Miguel, aconselhando a posteriormente realizar um Rx para verificar o estado de
uma possível lesão. Foram encaminhados a sala da diretoria. Em pé com aquele
semblante característico das freiras julgadoras e exemplos da moral e dos bons
costumes estava a Madre Superiora analisando-os minuciosamente e encarando-os
como dois seres de outro planeta. Aguardou o professor. Ouviu o relato do
acontecido. Questionou Miguel que olhava estático para o relógio por trás da
cadeira de espaldar alto da Rainha da Razão. “Dez horas, já devia estar lá!...”.
- “Miguel, ouça bem, você é bolsista. Não
pode ter essas atitudes. Um leve escorregão não é suficiente para você agredir
um colega de classe. Ainda mais um menino tão distinto, filhos de pais tão
exemplares que doam diversas benfeitorias para a escola. Você deve controlar
suas emoções! Sem falar no seu professor que você agrediu injustamente enquanto
ele tentava lhe segurar. O respeito pelos nossos colabores é primordial nessa
Instituição e eu não vou admitir atitudes como essa que ocorreu hoje. Seu
temperamento agressivo é prova de que você precisa de supervisão constante e
ajuda da orientadora educacional...”.
Enquanto o sermão ia sendo aplicado pela
administradora Miguel acompanhava as batidas do relógio percebendo o tempo
passando. Onze horas... Já terminou o primeiro tempo. A Comunidade nunca lhe
perdoaria. A alegria proporcionada por um momento de glória para os seus amigos
tão prejudicados pelas mazelas da pobreza foi interrompida pela sua “condição
social elitizada” ao receber aquele prêmio especial de estudos. Seus humildes
pais achavam que o seu destino estava sendo traçado com sabedoria, conhecimento
e garantia de empregos melhores que os seus. Lágrimas corriam de suas faces.
Ouvia a voz e os gritos dos seus amigos de pelada... Murmúrio ao fundo, o
veredito final: Advertência por escrito, reunião com os pais no dia seguinte e
o término da prova para não perder o subsídio.
Ao “colega amigo” um pedido formal de desculpas. Meio-dia terminou... Acabou o devaneio. Tinha
tanta certeza de que conseguiria! Perdeu o jogo e a tão sonhada vitória! Com
certeza como melhor jogador e atacante oficial do time voltaria para casa com a
taça nos braços e livre daquela “porcaria” de escola! A final da Taça das
Favelas! Ainda recolhendo os fragmentos e o caco do impacto inesperado da
decepção retornou para a sala a fim de completar a prova.
Foto: Iris Cristina
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