AS PALAVRAS E EU...

     Gosto do poder das palavras. Tenho um apreço sem igual por elas. Ao mesmo tempo podemos experimentar sentimentos e sensações diferentes conforme sua pontuação, colocação ou expressão gramatical. Podem ter sentido figurado ou conotativo, literal ou denotativo e a ordem das mesmas sempre altera o produto, assim como o rebuscamento lírico ou a forma coloquial propriamente dita.

     Vejam esse exemplo que escrevi em 1979: “Resolvi garatujar vocábulos numa substância feita de fibras vegetais reduzidas a massa e disposta em folhas, para obter uma situação crítica da patuléia que me cerca. Existe testemunho de asnáticos desde que surgiram os paraestratos. Agora a locução está mais difícil que a palavra propriamente dita.” Poderia ter escrito simplesmente assim: “Resolvi rabiscar palavras num papel para obter uma situação crítica do povo que me cerca. Existe testemunho de tolos desde que surgiram os estratos sociais. Agora a linguagem está mais difícil do que a palavra propriamente dita.” Perceberam a diferença? Naquela época não imaginava que estaríamos e/ou ficaríamos tão melindrados nas escolhas das melhores formas de argumentação sem comprometer o julgamento, discriminar, distinguir o certo do errado, discernir o politicamente correto. Éramos mais livres nas escolhas das palavras. Fossem elas difíceis ou não.

     Na verdade gosto das palavras como expressão mais profunda das realidades trazendo com elas sentimentos e emoções não ditas verbalmente, aprofundando a aproximação e a reflexão das pessoas. Sejam para aquelas que não têm capacidade para tal ou para aquelas que não conseguem ultrapassar suas barreiras pessoais. Nesse caso o autor, escritor ou narrador encontra, aproxima, criando uma ponte, um elo entre o real e o imaginário, entre a notícia e suas repercussões, entre a tragédia e a alegria, buscando reconhecer entre elas o sentimento mais comum e profundo da existência humana: as diferenças. O que seria de nós sem José Saramago com suas frases ocupando mais de uma página, usando vírgulas onde a maioria usaria ponto final? E de Graciliano Ramos com suas narrativas de homem nordestino, sem floreios, de linguagem de escrita clara, concisa, retratando o modo de fala mais rude do interior? E de Jorge Amado sem suas críticas sócio econômicas, regionalismo, militância, linguagem simples, coloquial e popular sempre enaltecendo as classes mais baixas com um retrato fiel dos costumes e festejos populares principalmente os da Bahia? E de Vinícius, poetinha, compositor, com seu lirismo simples, musicalização dos seus versos, com seus embates vigorosos entre o amor carnal e o amor espiritual, boêmio apaixonado pelo Rio de Janeiro?

     Quero poder ter a pretensão de amanhã ao fechar os olhos ter deixado as minhas palavras para alguém que simplesmente sorria, suspire, chore, ria ou odeie as mesmas. Que eu possa ir moldando-as para que se tornem um texto, uma crônica, uma prosa ou quem sabe talvez uma poesia como se fosse um edifício em construção. Tijolo por tijolo, cimento por cimento, andar por andar, bloco por bloco, eternizando-as pelo tempo e pelo conjunto da obra através da imortalidade de um livro.




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