MEUS MEDOS
Falar dos meus medos não é
tarefa fácil. Tenho muitos, ou melhor, dizendo, tinha muitos. Enumerá-los é
difícil, pois existem desde que me entendo por gente. Alguns cresceram de forma
assustadora levando-me a procurar ajuda psicológica e terapêutica, com direito
a psiquiatra e medicação. Transformaram-se em pânico! O último gatilho foi tão
vigoroso que me fez repensar e até terminar uma amizade de quase 50 anos.
O meu primeiro grande medo foi do “sapo
cururu”, como era assim chamado e contado nas histórias. Ou dava a minha
chupeta ou ele ia me pegar. Simples assim. Não ligava e seguia em frente
mastigando ela vigorosamente na boca, como uma espécie de enfrentamento pelo
distanciamento dos meus pais e a apresentação aos avós que nunca havia
conhecido na vida e aonde fui parar aos três anos de idade por conta de transferência
do meu pai militar do nordeste para o sul do Brasil. Até o dia que dei de cara
com ele, na beira do tanque que cheirava a agua suja, parado, ao lado de fora
da casa. Acreditem, lembro até hoje: enorme (para o meu tamanho), olhos
esbugalhados parecendo querendo saltar para fora e pose de rei sobre as quatro
patas. Nem sei aonde a chupeta foi parar de tão longe que a lancei e saí
correndo para nunca mais duvidar da sua existência.
Já na casa dos meus pais lembro-me de uns
rostos de porcelana, imitando crianças anjinhos que eram colocados em paredes
tipo quadrinhos. Não sei de quem minha mãe ganhou só sei que resolveu
posicioná-las em frente à cama de casal e eu não conseguia encará-los. Naquela
época meu pai viajava em campanha por meses e com seus medos também velados e
obscuros minha mãe me fazia dormir com ela no seu quarto e a caçula bebê dos
seus seis filhos. Eu simplesmente não conseguia pregar o olho fixando aquelas
três criaturinhas fantasmagóricas e quando o fazia vencida pelo cansaço tinha
enormes e de difíceis compreensões pesadelos.
E assim foram surgindo outros que na fase
adulta se somaram aos anteriores: medo de altura, de escadas rolantes, de
elevador panorâmico e de avião. Na vida profissional o de falar em público,
aparecer ou chamar muito a atenção e principalmente de errar. Errar sobre
qualquer circunstância era como receber o juízo final, o apontamento publico, o
castigo. Quando os filhos começaram a sair à noite o medo das tragédias, das
violências, dos acidentes de transito e das consequências por consumo exagerado
de bebidas, coisas que nunca se tornaram realidade.
Até aquele fatídico dia... Minha amiga foi encontrada caída no banheiro, mais precisamente no chuveiro... Planejou tudo, seria sereno e tranquilo. Tomou uma caixa de antidepressivos. Por meu intermédio a mais de mil e quinhentos quilômetros de distância a família tomou ciência do que estava acontecendo. No início não acreditaram muito foi preciso apelar para o desespero constrangedor e romper os silêncios dos segredos velados. Desde a chegada dos paramédicos até a entrada no hospital não havia vestígios de que sua primeira intenção tivesse sido concretizada. Mas a palavra suicídio e a força da sua existência foram o pior de todos os meus medos existentes. Sua história daria um livro e talvez esse seja o prenúncio de um mesmo. Mas o que não estava escrito é o que restou daquela amizade. Após a chegada do socorro na casa da vítima meu mundo caiu. Fui parar no hospital: pressão alta, taquicardia, pânico. Indagações múltiplas fervilhavam o meu pensamento enquanto meu corpo tremia compulsivamente podendo sucumbir verdadeiramente, sem qualquer tentativa anterior de chegar às vias de fato. Atingida por um furacão de emoções, após ser medicada e liberada dormi como uma pedra clareando as ideias e as emoções. Ao acordar, lúcida, pressenti: acabou!...Uma relação de quarenta e oito anos de total entrega e talvez, porque não, de compaixão, ajuda e consideração. Tentei explicar de todas as formas. Fui mal entendida, subjugada pela família, escorraçada e apontada tanto como vilã como também por falsidade ideológica.
E hoje encarando aqui o papel
em branco consigo lidar também com esse medo de escrever. De ser aceita, de ser
ouvida, de falar sobre tudo isso. A análise foi e continua sendo fundamental
para todo o entendimento passado e futuro. Medos sempre existirão, fazem parte
da nossa vida, mas compreender com segurança as questões inerentes aos nossos atos
e as nossas palavras tem um poder gigantesco e transformador. Ao que nos
pertence e ao que não nos pertence. Ao sentimento mais profundo de compreensão
e entendimento. Ao poder de acarinhar, aceitar, compreender que eles trazem e
fazem tanto parte da nossa história e da nossa vida que fica difícil separá-los
ou coloca-los sobre um aspecto de paralisação. Não é o medo que nos paralisa,
mas a coragem de lidar com os mesmos que pode ser nosso elo libertador,
reconciliador e resignificante de nós mesmos.
Parabéns por estar escrevendo ... Continue! Sou sua fã!
ResponderExcluirObrigada pelo incentivo!
ExcluirQue lindo depoimento !!
ResponderExcluirAcredito que todos temos " algum medo " e vc nos passar sua experiência ajuda muito .
👏😍
Obrigada..sim..cada um com seu medo...
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