O NASCIMENTO DE UM ATIVISTA
Sempre estudou em escolas boas, mesmo sendo essas públicas. Sim, porque na década de 60 todas as instituições públicas eram de excelente qualidade com suas vagas sendo disputadíssimas pela população em geral, onde a oferta de educação era acessível e igualitária. Sem distinção de raça, cor ou poder aquisitivo. Olavo era o queridinho da turma e do colégio inteiro, o tradicional Pedro II, localizado na Rua São Francisco Xavier, Tijuca, RJ. Flertava com todas as meninas e tinha um quê de esperteza no jeito de arrumar e sair de confusões, além de um sorriso e uma gargalhada cativante e estonteante.
Naquela época já era engajado nas questões políticas e sociais, participava do grêmio estudantil aonde eram reivindicadas melhores condições de ensino, participação nas decisões administrativas e lutas pela igualdade social, incluindo reinvindicações pela meia passagem no bonde e em outros transportes coletivos, meio ingresso nos cinemas e teatros além de descontos especiais em livros didáticos. Isso tudo contribuía para a sua consciência crítica em relação à sociedade fazendo com que se engajasse cada vez mais em atividades culturais, esportivas e literárias, assim como nas lutas políticas.
Quando o Golpe Militar de 1964 aconteceu houve uma ruptura em todos esses aspectos e mudanças conquistadas. Começaram as perseguições políticas, interferências na educação com as reformas introduzidas, cortes nas verbas e o sombrio Ato Institucional numero 5, o AI - 5. Olavo não podia conceber nem ao menos aceitar essas condições e principalmente que do outro lado da rua pudesse existir uma divisão territorial brasileira: o Colégio Militar do Rio de Janeiro. Como que aqueles jovens filhinhos de papais ditadores passavam engomadinhos e felizes com suas pastinhas de couro em baixo do braço como se fossem a elite da população estudantil? Como circulavam pelas ruas fardados como se nada estive acontecendo? Como conquistavam apenas pela vestimenta tanto as meninas do Pedro II como as do Instituto de Educação? Com que audácia eram cercados por elas na saída e usufruíam somente para si todos os olhares, das saias plissadas sendo puxadas para cima ao desfile de coxas e das ancas salientes. Partia para a briga, por qualquer motivo que fosse. Marcava território e limitava fronteiras. Chegava à casa todo arrebentado e rasgado, mas eram a época do mertiolate e do mercúrio cromo, remédios que curavam todos as feridas do corpo, mas da alma não havia emplasto ou Biotônico Fontoura que aplacasse os males da traição.
Começavam as demonstrações publicas dos sentimentos e ideais e Olavo não podia imaginar não estar presente. Lutou muito, internamente pelo seu colégio tradicional engajado por professores e companheiros e externamente através de manifestações de repúdio formando uma verdadeira linha de frente com um radicalismo e uma disposição que assustavam até os mais experientes. Foi perseguido. Começou a ter que faltar aulas, a se ausentar das reuniões, pegar conduções diferentes, chegar em casa na calada da noite e sumir durante alguns períodos em que o cerco se fechava. Até que a morte do estudante secundarista Edson Luís de Lima e Souto, em 28 de março de 1968 culminou com todo o descontentamento social contra a ditadura. E na Passeata dos Cem Mil, organizada pelo movimento estudantil empunhou o seu cartaz e foi para as ruas junto com milhares de outros estudantes, artistas, intelectuais, políticos e de outros segmentos da sociedade civil brasileira tornam-se uma das maiores e mais expressivas manifestações populares da história republicana brasileira. Em frente à Igreja da Candelária a marcha interrompeu seu andamento para ouvir o discurso inflamado do líder Vladimir Palmeira, da União Metropolitana dos Estudantes (UME) que lembrou a morte de Edson Luís e cobrou o fim da ditadura militar. Uma enorme faixa sobressaía da multidão e foi estendida com os dizeres: “Abaixo a Ditadura! O povo no poder!”. Não houve conflito policial e Olavo retornou para casa com um sentimento de vitória, mas não menos preocupado e cauteloso com a situação da sociedade como um todo. Ao mesmo tempo sabia que quem quer que tentasse reprimi-lo ou faze-lo calar-se, ou mesmo que o amordaçassem e o matassem sua voz se faria ouvida. Pelo menos por um momento. Uma sensação de dever cumprido apesar da exaustação física e mental se assolou sobre seu corpo tão jovem e já tão cansado pelo tempo. Não fez estardalhaço da sua participação, nem comunicou a família, mas ao acordar no dia seguinte se deparou com duas grandes fotos estampadas no jornal de grande circulação, na primeira página. A maior de todas estampava a multidão de pessoas e as faixas de protesto e na segunda as atrizes e estrelas do cinema, televisão e teatro Eva Todor, Tônia Carreiro, Eva Wilma, Leila Diniz, Odete Lara e Norma Benguel dando-se as mãos a frente do protesto, desfilando e abrindo o cortejo. E ali no meio delas, mais precisamente entre Eva Wilma e Leila Diniz, estava ele: Olavo! Com uma camiseta branca estampada com uma maçã vermelha, num protesto contra o acordo do MEC com os Estados Unidos da América.

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