A IGNORANCIA DA NOVELA DAS SETE!
Sempre gostei de ler. Nos meus
primórdios tempos depois que aprendi não parei mais. Lia de tudo: placas de
rua, anúncios em postes, revistas e jornais no chão do banheiro que minha mãe
cobria por conta do frio. Muitas vezes era uma briga para me tirar do trono
enquanto não acabasse de ler o piso inteiro. Nas nossas férias em Santa Maria
eu e o meu irmão passávamos à tarde na Biblioteca Pública. Era um ambiente
escuro, mas encantador e íamos cada um para sua mesa, escolhendo seu próprio
livro e saindo dali com os olhos marejados pela claridade da rua e pela
fantasia. “Contos de Grimm e de Andersen”, “Pollyanna”, “Sítio do Pica Pau
Amarelo”, “Alice no País das Maravilhas”, “Pinóquio”, “O Pequeno Polegar”, “O
Pequeno Príncipe”, “Peter Pan” (nosso ídolo!) e o “Magico de Oz”... Oh quantas aventuras!
Mais tarde através das minhas tias
(sobre o olhar vigilante das mesmas!) comecei a ler “O Cruzeiro” e “Seleções de
Reader´s Digest” com a expectativa enorme de acompanhar o próximo capítulo dos
clássicos da literatura que eram apresentados semanalmente dos livros de rara
ou difícil aquisição. Logo após vieram as fotonovelas. Ah, agora sim! Podia ver
as falas, as expressões e rostos dos personagens numa mistura de ficção
transformando-se em realidade...
Na escola primária ganhei o meu
primeiro livro: “O Meu Pé de Laranja Lima”. E não sabia se chorava mais pela
triste história ou de emoção por possui-lo. Aí mesmo que não desocupava mais o
banheiro, o meu refúgio particular onde podia navegar e viajar sem ser
incomodada (com uma família constituída de nove pessoas!) e ainda saborear cada
palavra desse universo mágico sem pressa de ter que devolve-lo na biblioteca.
Era meu, totalmente meu...
Muitos vieram após, graças aos livros
obrigatórios do currículo escolar do antigo ginásio e científico: “Dom
Casmurro”, “Quincas Berro D’Agua”, “Iracema”, “O Cortiço”, “Memórias Póstumas
de Brás Cubas”, “Vidas Secas”, “Menino do Engenho”, “Senhora”, “A Moreninha”,
“Olhai os Lírios do Campo”... E o gosto e o prazer acompanharam-me até o marco
do fim da adolescência e inicio vida adulta escolhendo grandes volumes e trilogias:
“O Tempo e o Vento”, “O Poderoso Chefão”, “Agatha Christie” (todos!). E o que
dizer da época do enamoramento? E da paixão? E da poesia? Esses momentos foram
embalados por Khalil Gibran, Clarice Lispector, Fernando Sabino, Fernando
Pessoa, Drummond, Manuel Bandeira, Mario Quintana, Cora Coralina, Cecília Meireles...
e Vinícius de Moraes, claro, poeta maior! Nessa época transcrevia os poemas
para um caderno próprio desenhando a lápis uma silhueta referente ao tema por
cima. Arrisquei-me também a colocar as emoções num caderno e vieram crônicas,
poesias, até um livro começado e nunca terminado... (quem sabe agora?).
E de repente a rotina nos consome... Casamento,
filhos, trabalhos, cursos, estresses inimagináveis e doentios, tristezas e
alegrias, reencontros, amizades...A vida como ela é: trabalho, casa, novela,
jornal, filmes/séries e fui me afastando da leitura. Agora aposentada depois de
um banho quentinho ao sentar a dois numa sala grande e vazia envolvida pelo
silêncio (apenas com o som da tevê insistindo ao fundo) e imersos na luz do
celular surge uma novela que me faz levantar os olhos, ouvir mais aguçadamente
e prestar atenção ao diálogo me remetendo a esse passado sedutor da leitura.
Sem perder o foco da realidade que todos vivemos tais como a pressa, o
imediatismo, as celebridades das mídias sociais, a ganancia e os prazeres
mundanos em contrapartida com o calor do samba, da bateria, da simplicidade do
subúrbio e dos valores imateriais inatingíveis a novela foi me conquistando (um
viva ao Fagundes e a Grazi Massafera!). E ao parar tudo para ver com tanta
maestria a discussão e a ambiguidade sobre a vida e a morte, sem matanças e
execuções, sem vinganças psicopatas e com um diálogo incrivelmente belo como se
fosse uma batalha travada a dois de sapiência me sinto uma verdadeira ignorante
na frente da tela. Como nunca li Shakespeare? Kafka? Hemingway? James Joyce?
Gabriel Garcia Marques? Miguel Cervantes? Nathaniel Hawthorne?...”A Letra
Escarlate”?
Acho que vou dar uma passadinha correndo
hoje na Travessa...
P.S: Texto escrito em 21/08/2019 por ocasião da novela Bom Sucesso, Globo.
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