AUDÁCIA X PUDOR
Estávamos
no inicio da ditadura militar, lá pelos idos de 1968. Como filha de tal podia
me considerar privilegiada não fosse o envolvimento com o álcool o problema
primordial do nosso genitor e com isso nem sempre acertar nas suas escolhas.
Mas o destino resolveu presenteá-lo, pois apesar da bebida e de seus exageros
pessoais era bom no que fazia: foi transferido para o Rio de Janeiro, para o
Instituto Militar de Engenharia, trabalhar como topógrafo. Orgulho geral.
Apesar da euforia de todos da família, minha mãe se mostrava apreensiva e
cautelosa. Mesmo distante de seus parentes e de sua terra natal, havia formado
uma legião de amigos inseparáveis e à disposição para todos os seus momentos de
necessidade com os seus seis filhos o que com certeza não aconteceria com a
atual mudança e retorno as suas origens. Minha avó ficou muito feliz, pois há
muito estava afastada dos seus ajudando a sua filha a tomar conta da imensa
prole e assim poderia ficar mais próxima dos outros filhos casados, cunhadas e
também dos outros netos queridos. Eu esperava e sonhava vislumbrar o Cristo
Redentor, o Pão de Açúcar e a praia de Copacabana. Seria a primeira visão
deslumbrante desse paraíso tropical que oficializaria o marco do início da
minha vida adulta. Nem poderia imaginar o que representou para a nação em geral
um regime autoritário, surgido a partir de um golpe militar que permitia que se
prendessem e torturassem pessoas consideradas suspeitas, acarretando em exílio
e mortes, além de desaparecimentos de políticos e intelectuais durante esse
período tão tenebroso e sombrio. Não éramos bombardeados de informações, muito
pelo contrário, os músicos, poetas e intelectuais provavam suas habilidades com
códigos infinitos de músicas, livros, poesias misturados com receitas de bolo,
letras de duplo sentido e qualquer forma de manifestação e repúdio em sinal de
protesto. Minha curiosidade infantil se limitava, a saber, quem seria o próximo
candidato a Buzina do Chacrinha, ou quem responderia as perguntas e conseguiria
chegar ao céu com o J. Silvestre, ou assistir aos imperdíveis seriados do Rim
Tin Tin, A Feiticeira, Perdidos no Espaço, O Túnel do Tempo, Jeannie é um
Gênio... Eram muitas opções, um novo e fantástico mundo que se apresentava acoplado
a um aparelho de TV.
Resolvi comemorar meu aniversário que
era em novembro antes que a transferência ocorresse de fato e fosse
oficialmente declarada, o que poderia levar meses ou até anos. Perguntei a
minha mãe se poderia receber umas amigas em casa, coisa simples, somente um
bolinho e um suquinho já estavam bons. Ela concordou prontamente, porque afinal
de contas nunca havia comemorado e porque seria também uma forma de despedida.
Saí convidando todo mundo, amigas, vizinhas e até colegas de colégio que não
tinha muita intimidade. O convite para a festa era irrecusável: reunião
dançante, comidinhas gostosas e um detalhe especial para o traje: todas as
meninas tinham que vir de macaquinho, curto, que era a grande sensação da moda,
além de botas de cano alto acima do joelho. Mais Jovem Guarda e mais Wanderléia
impossível! Quando minha mãe soube da programação ficou devidamente preocupada,
principalmente com as despesas já que passávamos o mês todo contando na ponta
do lápis quais contas que seriam pagas ou quais ficariam para o próximo
pagamento, gerando uma bola de neve de dívidas. A roupa da festa era outro
problema. Como confeccionar uma roupa em tão curto prazo? Minha avó como sempre
deu um jeito de comprar o tecido e dessa forma minha mãe recorreu a D. Teresa,
mãe da Cecília minha amiga, que era professora de corte e costura para salvá-la
dessa situação.
- Quantas amiguinhas você convidou
minha filha? Indagou minha mãe enquanto bordava os bolsos do meu macaquinho
vermelho, lindo...
-
Há... Umas vinte e poucas...
-
Você quer me matar do coração, garota?...Aonde eu vou
arrumar dinheiro para isso tudo?...Você quer que eu passe vergonha?...
-
Hi, mãe, relaxa, respondi como qualquer adolescente segura de
si.
Minha
verdadeira preocupação era a presença dos meninos. Sabia como eles se
comportavam. Brincavam mais do que dançavam e ainda ficavam debochando tanto
daqueles que insistiam, quanto dos que cediam e compareciam. Inventei uma
armadilha. Precisava convencê-los em massa. Disse que meu pai tinha comprado
uma nova televisão e quem fosse a minha festa poderia assistir a final do
Campeonato Gaúcho, o Grenal, totalmente a cores! Com direito a belisquetes e
bebidas!
Minha avó quituteira de mão cheia correu para
comprar leite condensado e preparou aqueles negrinhos (brigadeiros)
maravilhosos enrolados no açúcar como só ela sabia fazer e que desmanchavam na
boca. Inesquecíveis. Foram improvisados os cardápios: gelatina, pipoca, baldes
de ki-suco sabor uva e morango e um bolo feito de última hora que saiu um pouco
torto devido à impaciência da minha mãe com o mesmo. Apesar dela também ter
feito um curso de decoração de bolos, a cada tentativa aconteciam os mesmos
desastres, ou solava, ou queimava, ou o confeito ficava fora do ponto. Ainda bem
que não aconteceu a tragédia da Páscoa, na qual ela querendo dar ovos para
todos os filhos e, é claro, economizar, errou a receita e colocou mais sebo de
vela do que era pedido e os convidativos ovos brancos, decorados delicadamente
com papel de seda coloridos, foram dignos de ânsias de vômitos em todos os
filhos o que a fez chorar por dias desesperadamente.
E
finalmente chegou o grande dia. Casa limpa, cheirosa com os
cachorrinhos-quentes dourando ao forno, docinhos de coco que minha avó ralou a
noite toda quase colocando os próprios dedos nos ingredientes de tão fininho
que o mesmo ficava e a vitrola tocando repetidamente “Je t’aime moi non plus”,
ansiosa pela chegada dos meninos. Eu estava no auge da produção: macaquinho
vermelho todo bordado, botas pretas de canos longos acima do joelho, toda
trançada na perna, emprestadas da minha irmã que acabara de ganhar de
aniversário, cabelo molhadinho penteado para trás disfarçando os rebeldes
cachos. E fiquei assim em pé, para não amassar a roupa da festa toda linda esperando,
esperando, esperando... Quando finalmente chegaram três amigas: Eleonor, Rosa e
a Valentina. Só. Todas respeitaram os trajes, mas os figurinos comprometiam as
silhuetas. Eleonor de branco com grandes bolas pretas parecia um dálmata trôpego
por sua dificuldade no andar, Valentina de azul turquesa com babados no pescoço
fazia com que o seu rosto ficasse mais bochechudo, como um palhaço circense e
só a Rosa salvou a pátria, com seu macaquinho cor-de-rosa suave, cabelos tipo
Chanel louros e coxinhas grossas. Mas não foi nenhum menino! No final descobri
que o último Grenal havia sido em junho do mesmo ano com uma goleada de 4 a 0
do Grêmio sobre o seu rival o que dividia e acirrava cada vez mais os ânimos
colorados. Ou seja, a mentira audaciosa teve pernas curtas e resultados
decepcionantes. Mas a falta mais sentida foi a da Cecília, a mais antiga e
melhor amiga. Não entendia o porquê da sua ausência justo na minha primeira e
única festa. Sem celular ou rede social só descobri quase uma semana depois
porque faltou ao colégio, se escondeu e sumiu repentinamente. Ficou menstruada
na tenra idade e, acreditem, não poderia usar um macaquinho curto nessas
condições, sem absorventes próprios na época, ainda mais todo branco confeccionado
pela sua exímia mãe costureira e nem aparecer no colégio por vários dias... De
vergonha.

É minha amiga a década de setenta foi de muitas descobertas ,alegrias e sofrimentos. E pensar que naqueles tempos Modess ,pacote rosa era o absorvente do momento, e nem todas as meninas tinham acesso. As festas de garagem e sim um Brasil que matou e desapareceu com seus intelectuais, artistas e pensadores. A literatura nos permite três rever, reviver e recontar a história. Parabéns.
ResponderExcluirObrigada amiga pelo incentivo e pelas palavras
ExcluirExcelente texto. Passamos por muitas alegrias, muitas carências e sobrevivemos a isso tudo.
ResponderExcluirObrigada amiga Angela...Nossos relatos são verdadeiras inspirações!
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