A MORTE MORA AO LADO
Em tempos de pandemia e de isolamento social, percebi que virei uma daquelas vizinhas fofoqueiras. Que sabem de tudo da vida dos outros, escuta todos os ruídos da rua desde a transloucada catadora de latas berrando com sua neta às 6 horas da manhã, ao carteiro no seu horário habitual, as entregas de mercadorias, ao entra e sai de pessoas. A qualquer movimentação seja de uma mosca, um beija-flor ou pássaro já estou com os ouvidos em riste a espreita de um acontecimento.
Noite dessas varando a madrugada da insônia escuto, em voz baixa, quase
um sussurro falando no celular. De repente uma agitação momentânea, a batida do
portão. Fui espiar claro! Uma moça abria e fechava o barulhento espaldar de
ferro olhando para cima e para baixo numa ansiedade característica das esperas.
Eis que um carro para, salta um rapaz apressado que corre para os seus braços,
talvez o seu namorado. Subitamente um choro compulsivo, ensurdecedor, vindo do
fundo d’alma, daquele que paralisa o momento e qualquer expectador. O lamento
se tornou cada vez mais forte e mais potente o que fez a minha curiosidade
despertar e tentar compreender o que estava ocorrendo. Morreu alguém?...Pensei
de imediato! Mas quem?... Moro num prédio pequeno, de quatro andares e uma
cobertura, dois apartamentos por andar, totalizando nove residências, afastado,
no meio do verde e rodeado pela Mata Atlântica, na subida para o Alto da Boa
Vista, Rio de Janeiro. Os cachorros das cercanias começaram a se unir aos
prantos com os seus uivos e a minha cabeça girava tentando entender o
significado daquilo tudo. O casal adentrou.
Voltei para a cama pensativa e reflexiva com a imaginação fértil a criar
situações imaginárias até que o silêncio da noite foi cortado novamente pelo
som característico e familiar da sirene de uma ambulância. Estaciona e saem
socorristas com seus materiais, maleta e maca. Alguém está passando mal. Quem?
Enquanto divago fico olhando o teto refletido com o piscar das lâmpadas de
emergência vermelho-amareladas intensas e acompanhando o pulsar do meu coração...
Não pude deixar de lembrar da notícia de falecimento da minha mãe, tão jovem,
50 anos, na qual meu namorado atual esposo veio me dar a notícia numa madrugada
parecida. Qualquer semelhança não é mera coincidência! Aos poucos me vi
refletindo sobre os possíveis candidatos a essa a tal investidura. Comecei pelo
quinto andar. De cima para baixo porque na cobertura reside sozinho o pai de
outra moradora que está no exterior em viagem aguardando o nascimento da neta.
Por que será que começamos sempre com os mais velhos, raciocinei. Porque idoso
pode ou tem direito de morrer primeiro? Não, ele não é. Conheço bem a família
toda há anos e não havia nenhuma semelhança com a moça desesperada. Quarto
andar, moradores: a atriz da Globo e o casal de argentinos. A atriz tem a voz
tão marcante e sonora que reconheceria à distância e não tem filha, só filhos.
O casal de argentinos seria entregue pelo sotaque característico. Descartados.
Terceiro andar, a vizinha obesa que mora sozinha, mas escuto seus passos
pesados para lá e para cá talvez também tentando compreender os fatos. Ao seu
lado a inquilina que esta no exterior. Eliminadas igualmente. Segundo andar,
apartamento de frente vazio e o outro não consigo recordar se está ocupado ou
não. Primeiro andar, o meu de frente e o outro vazio. Estaca zero. Repassando...
E assim fui levantando e deitando, conjecturando e errando na mesma ordem.
Novo movimento na área. Surge um membro da equipe de socorro, sozinho,
abre e fecha a porta vai e vem da ambulância com força e determinação, procura
algo e sai com uns papéis e uma prancheta... Atestado de óbito? Já prevejo.
Cabeça a mil a essa altura, ansiedade crescendo e finalmente observo que todos
vão embora, sem sirene, sem motor ligado a mil e vazia... Vazia como o silêncio
das mais profundas desilusões, deixando para trás aquilo que seria o motivo de
sua vinda: a luta pela vida! E nesse interim começa a chegada e a movimentação
de praticamente um velório. Carros, pessoas, abraços, soluços e desesperos.
Continuava observando sem reconhecer ninguém. Uma senhora de cabelos pretos,
corte Chanel era amparada e consolada pelos visitantes, além da moça do portão
que se aconchegava a ela, com uma semelhança física sem igual, talvez filha,
acredito. Resido há 27 anos nesse edifício e é a primeira vez que presencio algo
desse tipo e não reconhecer ninguém era a pior prova que era submetida pela
incapacidade de sequer oferecer alguma espécie de ajuda ou de apoio,
principalmente em tempos de coronavírus. A incógnita ainda era total tanto dos
acontecimentos quanto dos fatos vindouros relacionados a ela até que o ruído
estrondoso de um carro velho, com o motor barulhento e descarga explodindo
fez-se presente e aguçou os meus ouvidos e sentidos reconhecendo o seu
significado:
- Aqui é o número 480? Estrada Velha da Tijuca?... É da Santa Casa....
Óbito
confirmado. Só me restava saber de quem e rezar por essa pobre alma. Sai o
corpo, sai o cortejo fúnebre encerrando a interrupção daquela noite anormal e incomum...
Incomum? Desço sonolenta e faço a pergunta que não quer calar a pessoa mais
informada desse mundo: o porteiro.
- Melchíades, quem morreu?.
- Morreu... Alguém morreu?.
Nossa, nem ele sabe. Difícil, pensei. Zelador limpando a entrada. Refiz
a pergunta:
- Edson, quem morreu?.
- Morreu?...Morreu alguém?...Não “tô” sabendo....
- Edson, você mora na portaria, ao lado do play, não ouviu nada nessa
noite?.
- Não... Bem... Até que ouvi um barulho... mas pensei que fosse um
ladrão e não saí para ver....
"Ah tá, ótimo", argumentei com os meus botões, se fosse um ladrão estaríamos
todos roubados, literalmente.
- Ok, Edson, faz o seguinte: limpa bem esse elevador, passa álcool em
tudo, no blindex, nas maçanetas, porque foi um entra e sai muito grande por
aqui. Além do mais o corpo deve ter saído pelo elevador e não sabemos a causa
da morte, orientei.
Ao abrirmos a porta de acesso nos deparamos com um tapete de porta,
desses de entrada. Meu esposo questionou:
- Edson, que tapete é esse? De quem é?.
- É do Seu Manolo..., ele respondeu.
Charada matada. Entreolhamo-nos. A ficha caiu... um pesar e uma dor. Seu
Manolo! Como pude ter me esquecido dele? Professor recém-aposentado da UFRJ,
catedrático, doutorado, escritor de livros e publicações. Morador eremita,
somente o via entrando e saindo devagarzinho do prédio com sua bengala de apoio
para lecionar, com os taxis de sempre o esperando na garagem devido a sua
dificuldade de locomoção consequência de alguma sequela motora. Foi professor
do meu filho na faculdade, a qual tinha muita consideração a sua pessoa mesmo
sendo de aspecto aparentemente introspectivo e solitário.
- “Que Deus o tenha!”, murmurei.
Toda essa situação conflitante permaneceu e ainda permanece me trazendo
várias reflexões e constatações. A primeira de todas: não sou tão fofoqueira
assim, pois nem conheço direito meus vizinhos! Não sabia que ele era casado nem
muito menos que tinha uma filha, pois nunca encontrei com as mesmas no período
de aproximadamente seis anos que residiram aqui. Sua vida pessoal era reservada
e foi preservada como tal. Depois que se aposentou as saídas se tornaram
escassas e os taxis não paravam mais na porta da garagem. A pandemia nos fez
isolados sem ter oportunidade de encontros fortuitos e de cumprimentos diários
de bom dia, boa tarde ou boa noite. Ou seja, a morte mora ao lado, só não
enxerga quem não quer ver!
Rita Paldes Faria
17/07/2021

Rita legal ver teu conto publicado, já tive a oportunidade de o ler, e de te escutar lendo durante nosso grupo de produção literária. Sim , a pandemia trouxe a morte para o nosso cotidiano, nos fez ficar em casa e a partir daí muitas rotinas se fizeram diferentes. Sucesso amiga.
ResponderExcluirObrigada pelo incentivo e convite para participar de tão seleto grupo!
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