DIA DE RAINHA


     A tesoura ganhou um novo status. Foi consagrada a rainha das ferramentas dentre todas as mais utilizadas pelos seres humanos e, sem sombra de dúvida, a mais requisitada. Sendo capaz de cortar tudo desde embalagens, alimentos, papel, tecidos, cabelos, unhas, arames e até ser auxiliar cirúrgica foi eleita com facilidade. A votação foi comemorada pela esquerda, mas a direita resolveu contestar e, revoltada exigia, um novo plebiscito.

    No púlpito, a faca garantiu que foi criada milhares de anos Antes de Cristo muito aquém da vencedora. O martelo por sua vez argumentou ser da Idade da Pedra e de grande utilidade pública. O alicate questionou que sem ele não haveriam como agarrar os objetos quentes nas fundições e como tal foi fator importante e crucial para o crescimento industrial. As arruelas exigiam reconhecimento e mais respeito com as minorias. Foram seguidos pelos questionamentos da picareta, assim como das chaves inglesas e de fenda.

    Reivindicaram nova votação e a destituição imediata do trono da não tão merecida hegemonia partidária. O rebuliço foi gigantesco e a desorganização tomou conta do plenário com a divisão dos grupos a favor e contra a investidura.

     Até o momento em que a sábia tesoura pede silêncio batendo vigorosamente à Mesa da Presidência e, num caloroso pronunciamento, desafiando a tudo e a todos, diz:

     - Quem souber de alguma ferramenta portadora de duas lâminas diferentes, com capacidade de corte num mesmo sentido e sob um único comando, fale agora ou cale-se para sempre!

     Constatação fatal e incontestável.

 

    MORAL DA HISTÓRIA: Em terra de cego quem tem um olho é rainha, ou melhor, em terra de tesoura cega, quem tem olho que se cuide!


                     Rural Tailor's Crown 1

                   Fonte: Flickr

                   Foto  L. J. Maher (AKA Meagher)


                       

                     

 

 

 

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