RETRATO



    “Eu não tinha este rosto de hoje, 

     Assim calmo, assim triste, assim magro,

     Nem estes olhos tão vazios,

     Nem o lábio amargo.

     Eu não tinha estas mãos sem força,

     Tão paradas e frias e mortas;

     Eu não tinha este coração

     Que nem se mostra.

     Eu não dei por esta mudança,

     Tão simples, tão certa, tão fácil:

     — Em que espelho ficou perdida
    a minha face?

     Cecília Meireles, Retrato, Viagem, 1939”.

     Recordo-me de quando fiz quinze anos de idade e ganhei um caderno com capa de couro vermelha e inscrição dourada “Poesias”, além um conjunto de caneta e lapiseiras, também douradas, tipo roller, num lindo estojo almofadado preto. Não sabia o que me encantava mais, o caderno ou as canetas. Eram verdadeiros tesouros que não me atrevia sequer a tocá-los e muito menos a usá-los. Depois de um namoro que pareceu eterno resolvi abrir a primeira página. Peguei as canetas mágicas e com a maestria que o momento propiciava escolhi a poesia que iria fazer parte do mesmo eternamente. Fui tocada profundamente pelas sábias palavras da poetisa e o inaugurei, copiando o texto com letra manuscrita impecável proporcionada pelo reflexo da caneta brilhosa. Depois desenhei com a lapiseira e muito esmero uma silhueta de mulher com uma expressão vazia e perdida. Imortalizei o poema e a imagem na minha vida.

     Hoje, ao reler essas palavras tão melancólicas e que tanto me atingiram em tão tenra idade não consigo deixar de pensar qual o mistério e o magnetismo que as mesmas provocaram em mim.  Naquela época o meu eu e o meu presente não eram de sofrimentos. Qual a imagem que me via refletida no espelho?  Do medo? Dos fantasmas? Do inusitado? Do futuro? O que eu escreveria hoje, quarenta e sete anos depois nesse mesmo caderno calejado pelo manuseio e amarelado pelo tempo? O coração, outrora fechado, passou por mudanças e se encontra aberto? Numa oposição centralizadora e apaziguadora entre o meu passado e o presente, se me fosse permitido (sem ofender a minha ídola mor), e comparando aquela jovem menina-mulher com a mulher-menina de hoje, arriscaria escrever algo assim:

    Eu nunca tive este rosto de hoje,

     Assim agitado, assim feliz, assim gordo,

     Nem estes olhos tão cheios de prazer,

     Nem esse lábio ardente.

     Eu já tinha estas mãos com força,

     Tão movimentadas e quentes e vivas;

     Eu  tinha um coração

     Que sempre se mostrava...e pulsava

     Eu dei por esta mudança,

    Tão simples, tão certa, tão fácil:

    No meu espelho vi, refletida, a minha face.

 

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