POLITICAMENTE CORRETO

 


    Estamos vivendo numa sociedade muito democrática onde todos podem exercer sua cidadania com plena ciência dos seus direitos civis, políticos e sociais. A consequência desse vínculo é assegurada ao cidadão pela Constituição Federal. Relaciona-se, portanto, com a participação consciente e responsável do indivíduo na sociedade, zelando pela garantia dessa conquista. O problema é que “exercer a cidadania” é um termo difícil de ser compreendido. O que isso realmente significa? Tudo começa com a tomada da percepção e da criação do senso de pertencimento. Com o sujeito se enxergando como um agente que tem grande responsabilidade na vida em sociedade, ele não só se coloca como um antagonista potencial e vítima das circunstâncias, como também de protagonista reconhecendo que pode ser parte atuante na defesa do bem coletivo. E é aí que mora o perigo.

    Os mais afortunados e oportunistas, não só os mais estudiosos e letrados, utilizam-se de ferramentas próprias de persuasão e convicção para encasquetar o ser humano, seja ele seu eleitor ou seu amigo, de que é o conhecedor da razão. Tudo o que lhes é sabido vem com um verdadeiro ganho de causa na qual deixam claro desde o início do embate: discordam de tudo e de todos, não toleram gostos e ideias diferentes, são os “donos da verdade”, não têm paciência para entender e se irritam quando contrariados.

    Em tempos eleitorais estamos vivenciando processos parecidos, onde as pessoas estão se bloqueando nas redes sociais, saindo dos grupos de bate-papo e até deixando de frequentar os ambientes. Os familiares e amigos estão se confrontando, trocando farpas virtuais e perdendo seus vínculos criando dessa forma uma bolha digital de isolamento. E onde fica a democracia nessa história toda? A proposta mais conciliadora para nos mantermos fiéis aos nossos princípios democráticos é da proibição total dos assuntos de caráter político, religioso e futebolístico. Imagino então diálogos assim doravante:

    – E aí, amigo? Quais as novidades?

    – Nenhuma.

    – Como assim? Teu Flamengo não ganhou?

   – Ganhou, mas prefiro não comentar... Você sabe, te considero muito apesar de você ser vascaíno doente...

   – Sim, melhor mudar de assunto... E sua mulher?

   – Virou Pastora Evangélica...

   – Ah é?...Nossa... Sei, melhor falarmos de outra coisa... Vais votar em quem?

   – Quer mesmo saber?

  – Não, amigo, com certeza não. Tenho visto umas postagens suas... Sobre um jacaré... não entendi muito bem, deixa pra lá… Mas vi uma foto sua numa moto passeata em Copacabana, com uma camisa verde e amarela… Preferi não comentar...

 – Pois é, fiz o mesmo quando vi você com duas bandeiras, uma com estrela vermelha de cinco pontas e outra com as letras MST...

 – É, vamos deixar isso tudo pra lá… Mais alguma novidade?

 – Não, nenhuma.

 – Ok, vamos marcar um chopinho depois das eleições? Falar umas abobrinhas?

 – Sim, com certeza. Até mais, amigo!

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