CONTRADIÇÕES

       Sabia que não era mais tão jovem. Sua pele já ressecada e enrugada não deixava dúvidas das agruras passadas e das marcas da solidão em sulcos profundos. O tempo se incumbiu de esculpi-las e no olhar as lembranças de um longevo tormento pesavam suas pálpebras insistindo em demonstrar pela lei da gravidade todas as angústias reprimidas. Morava sozinha e não tinha tido filhos, a fertilidade não lhe fora permitida, seja pela falta de parceiros compatíveis ou pelas suas dificuldades com o sexo oposto. Não que não sentisse desejo, mas este nunca fora concebido fora do casamento e essa era uma palavra que não fazia parte do seu dicionário. E agora, afinal, quem iria desejar esse corpo cheio de próteses, cânulas e aparelhos acústicos? A ela não cabiam mais os mundos da sedução e do romantismo.

     Moradora do Leme, saía de casa para sua costumeira compra semanal se arrastando, tropeçando nos buracos existentes, numa via crucis por vezes dificultosa e dolorida para os seus joelhos cansados. Num dia, de repente, dá-se conta que não sabe mais para aonde está indo. Confunde as lojas e a farmácia que lhes eram tão familiares. Onde elas estão? Mudaram-se? Continua a procurar, a caminhar e num instante depara-se com o mar. Chegou até o calçadão sem perceber. Eu moro aqui? Indaga-se e procura uma explicação com o calor sufocante atrapalhando seu raciocínio... Acho melhor eu voltar pelo mesmo caminho, pensou, mas sua dimensão de espaço e tempo a fizeram chegar até a entrada do morro da Babilônia. Deparou-se com as escadarias e previu: só me resta subir. Um meliante a interpela e se posta bem a sua frente:

    - Vai aonde vovó?

    - Não sei? Acho que na casa da Mariazinha...

    - Que Mariazinha. Coé. Aqui tem um montão de mulhé com esse nome e você não pode ir circulando por aí como quem não quer nada! Isso aqui tem dono, tá ligado?

    - Eu não sei... Estou confusa, acho que é a esposa do Manuel da padaria...

    - Papo reto vovózinha, fala tu, de boa, aonde quer ir? - completou já sacando uma pistola.

    - Por favor, sem violência, eu estou perdida!

    - Então dá meia volta, pega a visão...

    - Você poderia me levar em casa?

    Esse pedido o desconcertou. Era acostumado a dar ordens e não de ser obedecido. Mas teve pena dela e a acompanhou. No caminho falavam de fome, miséria, condição social, das mazelas da vida, mortes e desencantos. Chegando a casa ela lhe deu água, comida e num gesto de profundo agradecimento cogitou: Você quer ser meu ajudante para compras, farmácia e tudo o mais? Ele pensou, ficou na dúvida entre o fácil e o difícil, mas aceitou. Passou a ir uma vez por semana, depois aos finais e por fim, todos os dias. Apaixonaram-se, casaram-se e hoje ele é Formado e Pós Graduado em Direito do Idoso e Gestão Gerontológica.



                         Fotografia by Paulo Izidoro

Comentários

  1. Adorei, ri bastante com o final. Crônica conto que faz o leitor ir construindo a imagem da personagem aos poucos. E finaliza de forma surpreendente

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    1. Obrigada amiga!...Uma experiência muito boa de Crônica Conto.

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