CARTA PARA A MORTE


Rio de Janeiro, 24 de outubro de 2022.

Querida amiga morte,


   Em primeiro lugar gostaria de dizer que hoje para mim você é uma querida, pois anteriormente fugia de você como o diabo da cruz, e foi preciso dez anos de processo terapêutico para enfrentar a sua presença e considerá-la como uma ordem natural da existência humana.

   Em segundo lugar, também pelos motivos expostos acima, passei a lhe considerar uma amiga, uma espécie de confidente com quem posso ir me abrindo e preparando o terreno para o nosso encontro ocasional. Sem, evidentemente, nenhum preconceito, nenhuma culpa ou qualquer vestígio de não estar devidamente pronta ou preparada, ou ainda, com receio de dever não cumprido. Espero que esse laço criado com tanto zelo e cuidado não se desfaça até a hora derradeira.

  Em terceiro lugar queria lhe dizer o quanto sou feliz e alcancei minha plenitude. Formei-me, casei, tive tres filhos maravilhosos, fiz diversas pós-graduações, trabalhei extenuosamente. Comemorei muitos aniversários e ainda vou comemorar tantos quantos outros você deixar, sambei e sambo muito sempre que posso (apesar de ter sangue carioca e pé de gaúcha). Amo cerveja, pagode, música, cinema, livros e artes em geral. Sou artesã, adoro papel, tesoura, cola e todas as formas de eternizar momentos. E para fechar com chave de ouro estou esperando a vinda da primeira neta e quem sabe nesse momento de um segundo já a caminho. Sem contar a realização pessoal de estar lançando esse ano a minha primeira coletânea que será com certeza a precursora de um livro solo, assim que possível e com sua licença, é claro!

   Em quarto lugar, pela exposição dos fatores apresentados, apesar de ter demonstrado sabedoria para a sua chegada, peço-lhe encarecidamente aguardar um pouco mais para tal passamento, pelo menos até o nascimento dos netos e o lançamento do livro individual. Não é pedir muito, considerando que agora já estabelecemos um bom vínculo de camaradagem. E, também, não me leve a mal se no meio do caminho houver algum pedido inesperado de prorrogação, através de outra carta (?), já que algo novo ou especial, pode surgir no ciclo das novas estações.

   Enfim, no caso de você chegar de supetão, se por acaso o acaso não me proteger enquanto eu andar distraído saiba que amei demais, chorei demais e vi o sol nascer. Arrisquei bastante, errei muitas vezes também, assim como acertei e fiz o que eu queria fazer. Eu aceitei as pessoas como elas são, compliquei e trabalhei demais e às vezes até de menos. Eu vi o por do sol, me importei com problemas pequenos, grandes e morri de amor... Aceitei e aceito a vida como ela é, com todas as alegrias e tristezas que vieram dela e através dela. E, por fim, no meu epitáfio – e não no dos Titãs – quero que conste a seguinte inscrição: Aqui jaz uma pessoa feliz!

  Sem mais para o momento, despeço-me aguardando seu retorno (ou melhor, pode deixar sem resposta até segunda ordem),

  Da sua amiga de sempre, desde o nascimento,

  Rita


P.S: Esqueci-me de acrescentar e reforçar um pedido especial: no meu velório quero empadas, cervejas, sambinha e pagodinho rolando. Por favor, não deixe que esqueçam!

Comentários

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

O ALMOÇO

O SAPO CURURU

O PESO INVISÍVEL