A DANADA

  Desde o início dos tempos, as relações entre irmãos são complicadas. Caim matou Abel por inveja e foi punido com o banimento do Éden. Deu origem à palavra fratricídio e às confusões que se espalham por todas as famílias. Irmãos brigam muito. Por herança, pelo amor dos pais, por qualquer motivo. Desentendem-se por aquela coisinha de nada turbinada pela intimidade. Mas nunca tinha ouvido falar que brigavam também por causa dessa danada.

    Não era uma qualquer. A irmã mais nova tinha feito aniversário e ganhou da melhor amiga, festejada pelo mundo como uma das melhores da linha, além de custar o olho da cara. O mais velho tentou abrir o presente especial pela formatura do filho em Medicina, a duras penas e sacrifício, era merecido. O segundo disse que caso houvesse uma disputa a chance maior de a mesma ser dele já que a consumia para fins medicinais. A terceira convicta da sua condição de habitué alegou que necessitava do estímulo da malvada no seu cérebro, além de reconhecer que também combatia sua insônia. Os outros irmãos alegaram estarem sendo deixados para trás e independentemente dos motivos expostos não iriam abrir mão do seu direito pelo fator peso x idade x atividade física que os favoreciam.

    Ficou decidido para resolver o conflito que a especiaria ficaria guardada por três dias, intacta, no lugar que lhe convinha até que os ânimos se acalmassem ou dessem uma solução amigável. Todos sonharam algumas vezes — até acordados — com o prazer que teriam ao absorver a raridade vagarosamente. Na sexta-feira, enfim, a caçula resolveu abrir o tão esperado presente. Saiu para comprar uns apetrechos e ainda lembrou que precisaria de um termômetro para verificar se a temperatura havia atingido o grau ideal, tanto dos ânimos como da temperatura externa do recipiente.  O devaneio desapareceu assim que chegou a casa. Ainda na garagem, viu vazio o objeto de desejo em uma caixa de papelão. Não sabia o que pensar, mas logo imaginou o autor do disparate: o irmão mais velho. Entrou gritando, provocando corre-corre naquele até então pacífico lar da Tijuca. A autoridade paterna foi posta à prova, mas não surtiu efeito. O irmão, fazendo cara de inocente, disse que chegou com muita vontade de traçar a danada e não resistiu ao ímpeto. Chamar o seu objeto de desejo de danada foi o que mais a doeu — mais até do que a perda preciosa da mesma — e a gritaria recomeçou.

    Houve armistício, mas foi aquela paz forçada, baseada em ameaças maiores e não em perdão. Até porque não haveria desculpas, como não houve até hoje, porque o assunto não morreu. O mínimo que esperava do irmão era outra, igualzinha, posta no mesmo lugar, mas até o momento isso não ocorreu.  O próprio pai, homem de justiça, também não se propôs a repor o prejuízo. Ele acredita que os irmãos devem se entender, ainda que um tenha levado a pior, porque é prova de que a família tem de se apoiar sempre. Mágoa é difícil de curar; ele mesmo já afanou uma caixa de bombom que estavam no quarto do irmão, mas o que são confeitos diante da afronta que gerou uma guerra eterna? As pelejas ainda estão muito longe do seu fim. A danada da cerveja australiana Antarctic Nail Ale, produzida com gelo do iceberg e, levando-se em conta as pequenas ofertas e peculiaridades, faz com que ela seja vendida em leilão entre 800 e 1815 dólares.




Comentários

  1. Muito boa crônica ...kkkkk eita cervejinha bem cara....deve ser dos deuses. E sim família com muitos irmãos tem dessas coisas. Parabéns

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