O COMETA HALLEY E O BACALHAU MARAVILHA
Um
belo dia meu pai foi ver o Cometa Halley. Assim estava escrito no bilhete
deixado após o sumiço. Irmãos reunidos expectantes, ansiosos e amedrontados,
imaginando o possível e o impossível. Vieram de longe para ajudar na procura.
Primeiro na casa de parentes e amigos, posteriormente em hospitais e por último
nos IMLs da vida. As horas e dias se passando, consumindo nosso raciocínio,
estratégias e lógísticas que resultavam em infrutíferas notícias promissoras. O
desânimo se abatia sobre nós.
Eis que vou para a cozinha, casa cheia,
panela e geladeira vazias. Nem havia tido tempo para compras. Encontro uma posta
de bacalhau guardado para uma ocasião especial e resolvo fazer uma receita suculenta
que ilustrava a capa do meu caderno destinado as mesmas: o Bacalhau Maravilha. Os
irmãos famintos e ansiosos já não sabiam o que fazer e a quem recorrer. Eu na 36ª
semana de gestação, pés inchados, pressão lá em cima, lágrimas correndo, começo
a decifrar a receita minuciosa e trabalhosa. Passo a passo vou executando-a com
a maestria de uma orquestração sinfônica. Finalmente, depois de horas, coloco a
mesa o fumegante prato gratinado que se tornaria um marco desse episódio.
Ao cair da tarde já estava na maternidade. Era
preciso intervir antes que o bebê e mãe corressem mais riscos. E às 11 da noite
de treze de abril de 1986 meu segundo filho nasceu. Era Páscoa. Chegou ao mundo
sendo ovacionado (primeiro homem da família depois de três mulheres) e comemorou
fazendo um belo xixi no obstetra e na mamãe, o que foi acompanhado com
gargalhadas por todo centro cirúrgico. Pergunto
pelo meu pai. Nada ainda. E num choro compulsivo de emoção, desespero, aflição,
medo, angústia, tudo junto e misturado sinto me anestesiarem. Uma semana sem
dormir. Precisava de forças para alimentar o bebê que necessitava do meu nectar
restaurador.
Meu pai foi encontrado dois meses e meio depois.
No interior de Santa Maria, na casa de uma irmã que não tínhamos contato, pois
nem telefone possuía na época. Foi andando de cidade em cidade até se acomodar
por lá, cansado e solitário. Através de uma vizinha, moradora a mais um
quilômetro do local, guiados pela lista telefônica conseguimos a confirmação do
seu paradeiro. O cometa já havia passado e com ele o rastro da destruição
causada pelo sumiço veio à tona. Era chegada a hora de intervir.
No final daquele ano no Natal resolvi fazer
dois pratos da especial culinária, um para cada família. Na Páscoa seguinte
também. O primeiro em agradecimento ao nascimento de uma nova vida e o segundo ao
renascimento, na figura de meu pai. Sua vida mudou daquele momento em diante.
Viúvo, endividado, alcóolatra e deprimido tinha realmente pensado em sucumbir à
crise e a passagem do corpo celeste o ajudaria nessa missão. Acredito que a
chegada do neto, o amor paternal, a incessante procura dos filhos enquando a consciência
ia sendo recobrada à medida que trocava de lugar o fizeram refletir sobre sua
importância nas nossas vidas e o porquê da sua existência. E desde aquele dia
até hoje duas suculentas grandes travessas da iguaria cobrem as mesas natalinas
e pasqual. Daqui a quarenta anos não estarei mais aqui para fazer o famoso
Bacalhau Maravilha e nem ver o próximo Cometa Halley (ele se aproxima da Terra
só a cada 76 anos), mas espero repassar para as futuras gerações a lição de que
só temos uma única chance na vida,
ou seja, assim como o meu pai e eu, dificilmente algúem conseguirá vivencia-lo
duas vezes.

Lembranças!
ResponderExcluirSim, muitassss!
ExcluirEmocionante Rita, a vida tem vezes que supera a ficção. E a crônica se presta para podermos resgatar fatos tão marcantes de nossas famílias. Parabéns
ResponderExcluirSim, amiga...Significa resignificar!...Obrigada
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