AS ÁRVORES E SEUS FRUTOS
Somos seis. Graças a Deus, somos.
Vindos de uma família numerosa e de diferentes vertentes geográficas. Uma das
minhas irmãs costuma citar o texto bíblico de Lucas, 6-44: Toda árvore é reconhecida por seus frutos. Partindo dessa premissa
considerei a personalidade de cada irmão ser como uma espécie de árvore, o
fruto de cada um deles, as individualidades geradas e suas características.
Renato, o mais velho, é um jatobá, com seus quase dois metros de altura.
No interior a seiva é curativa e utilizada para diversas enfermidades. É uma
arvore rara, sagrada pelos povos indígenas que serviam os frutos duros antes
dos rituais de meditação. Não foi à toa que participou de movimentos
psicodelísticos da década de setenta, das calças bocas de sino e festivais da
canção. Sofreu um acidente que quase o deixou paraplégico, mas seu vigor, força
e vitalidade provenientes desse sumo vital energético o reergueram e com o
poder da arquitetura ressignificaram suas estruturas e alicerces do seu futuro
tão desafiador.
Roberto, o segundo, é uma palmeira. Coroado por um penacho de folhas
utilizado na cobertura das casas, seu temperamento constrói nossos alicerces de
honestidade, caráter e honradez. Elegante, de grande porte, caule lenhoso e cilíndrico
esculpido pela carreira e disciplina militar.
Através do óleo avermelhado e cicatrizante que produz, alivia nossas
dores e traumas existentes. Nasceu para ser pai e da sua polpa nos presenteia
com geleias de amor, licores e vinho de boa safra que saboreamos juntos em bom
convívio e harmonia familiar.
Rosana, a quarta, é eucalipto onde o tronco que fornece papel, carvão e
madeira a torna responsável por nossa energia vital. Nas sementes dos seus
frutos são produzidos óleos essenciais com propriedades medicinais que a faz
ser nossa guru espiritual, afastando com seu dom mediúnico o olor
característico dos maus espíritos, das mazelas e da crueldade humana. Sua fé
inabalável faz com que ultrapassemos barreiras e suas dificuldades inerentes
prezando sempre pelo sentimento maior de união a qualquer desavença ou
discórdia.
Rejane, a quinta, é salgueiro-chorão. A elasticidade dos seus ramos
permite que eles atinjam o chão, fornecendo-lhe um ar melancólico, saudoso, mas
não triste. Emotiva ao extremo, sensível e de excelente aspecto dramaturgo e
boa voz é a atriz, a cantora e a mais engraçada de toda a família. Na tradição
cristã suas ramas esconderam a Virgem e o Menino Jesus na fuga para o Egito.
Religiosa e fervorosa, assim como seus frutos de capsula marrom são símbolos da
vida eterna, acredita sempre que encontrará o seu par ideal pelas esquinas das
adversidades da vida.
Renata, a caçula e a sexta, temporã. Não encontrei similaridade com
nenhuma espécie de vegetal nativo, mas ao concluir os paralelos das árvores com
o das condições humanas familiares, refleti sobre sua ocupação e ofício
principal. É a que cuida dos solos em que as mesmas foram plantadas. Sua
topografia, textura, adubações e calagem para corrigir a acidez que recebeu,
assim como a fertilidade. É a sua incumbência mor, transmitida através das
raízes profundas das gerações passadas.
E eu? Eu sou um jequitibá. De grandes proporções é considerada rainha da
floresta pelos seres vivos que dependem dela entre musgos, orquídeas, bromélias,
mamíferos, pássaros e insetos. Alta, com copa frondosa e ornamental, minha
sombra é um acalanto para os conflitos e discussões calorosas habituais. Esse
vínculo, dependência-harmonia-relação que busco para a construção de um amor
saudável, cúmplice e incondicional entre irmãos. É certo que pela longevidade
(um jequitibá, por exemplo, tem ciclo de mil anos) não conseguiremos ser imortais,
mas a certeza de que serviremos de exemplo para as futuras gerações me fazem
acreditar na premissa inicial: somos e fomos boas árvores, além de termos dados
excelentes e bons frutos!
P.S.: Sabiam que os maiores jequitibás-rosa
do Brasil ficam em Santa Rita do Passa Quatro, SP, apelidados de patriarca e
matriarca?

Crônica de muita afetividade. E para quem conhece os irmãos e irmãs reconhece nas descrições passo a passo as semelhanças. Parabéns Rita. Amei que tu escolheu o jequitibá para te representar.
ResponderExcluirObrigada amiga!...Sim, muito peculiares as semelhanças!
ExcluirParabéns, Rita! Um retrato de cada um dos irmãos mais fiéis do que as fotos demonstram. Lindo de ler. Também éramos 6 num tempo que se foi. De pé, como um Ipê, sou eu ainda por aqui.
ResponderExcluirQue bacana Jacira!...Obrigada!...Que bom que você é um lindo Ipê!
ExcluirTeu texto me transportou ...
ResponderExcluirObrigada Elisa!
ExcluirAdorei Rita!Ainda não tinha lido esse conto,de conotação emotiva e descritiva de vc e seus irmãos. Gostei mto!
ResponderExcluirObrigada amiga...e esta concorrendo a um premio, acredita?
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