O ALMOÇO
Sentada na varanda da solidão,
Elvira observava e sentia a hora da brisa da tarde. O asilo era silencioso àquela
hora, com vozes baixas e passos lentos atrás das janelas. A cadeira de rodas
onde se recostava rangia como um sussurro antigo. Ninguém a visitava. O filho
morava no exterior - Nova Zelândia ou Noruega, ela já não lembrava mais com
exatidão. Pagava todas as despesas, conforme o staff local informava e às vezes
mandava uma mensagem curta e impessoal do tipo “estou ocupado, quando der
telefono”, coisa que nunca aconteceu. Visitas? Nunca.
Na memória de Elvira, o tempo se dobrava
como uma toalha de mesa velha manchada de lembranças. Ela revivia aquele dia
conforme o vento leve e agradável soprava e o cheiro da mata a inebriava. Preparara
um almoço para alguém especial, convidado do marido, pequeno agricultor,
humilde e rude. O homem que viera cuidar dos negócios da região, designado pelo
governo, a fim de aconselhamentos e condições de rentabilidade naquelas pacatas
terras de recursos naturais. Chamava-se Agostín, francês ou uruguaio, algo
assim. Ela colhera as ervas do quintal: alecrim, manjericão, hortelã, sálvia.
Lavou tudo com cuidado, picou devagar, como quem escreve uma carta com o cheiro
e o aroma das mãos jardineiras. Fez uma sopa de legumes exalando o perfume dos
temperos e das especiarias. A galinha dourou com alho e limão. Panquecas foram
recheadas com queijos curados. A salada fresca de hortaliças cultivadas com
esmero complementando o cardápio. O arroz soltinho. O doce de abóbora com coco
de sobremesa. Agostín devorou e elogiou cada prato. Com olhos verdes
penetrantes e brilhantes, muito mais do que suas paisagens e plantações
habituais, desconcertaram Elvira que se sentiu refletida num espelho nunca
antes visitado ou percorrido. Encabulou-se. O marido austero pouco lhe falava
ou transmitia que dirá ouvia o que ela queria ou desejava. Sua missão era
apenas lhe servir quando lhe fosse conveniente, fosse à mesa ou na cama.
- “Essa mulher conseguiu transformar essa
refeição num verdadeiro banquete! Onde não se faz distinção entre o apetite e a
saciedade! Do corpo e do espírito!”, elogiou Agostín.
Elvira enrubesceu. Não fazia ideia da
capacidade do poder daquelas palavras, do chamado daquele olhar e daquele
desejo crescente dentro dela. Quase não conseguia engolir. E entre risos
tímidos e mãos que se esbarram e se tocam por acaso o dia foi passando.
Recolhem a mesa. O marido despede-se do visitante e vai para os seus aposentos,
cansado de tanta ladainha agrária. Na soleira da porta Elvira estica a mão para
Agostín, com um “volte sempre” e ele
a puxa para si. Abraça-a com ímpeto e força como se ainda estivesse faminto e
insaciado. A tarde virou noite, a noite virou uma relva e a relva virou um
mundo. Fizeram amor entre temperos, aromas e sabores, fundindo-se em um só,
combinando-se e resultando em algo maior que as soma das suas partes e
iguarias, complementando-se. Elvira pela primeira vez conheceu o prazer. O
desconforto habitual, a carência de preliminares e a rapidez do gozo individual
e solitário do marido foram substituídos pelo renascimento, pela percepção e
valorização de si mesma que antes não possuía ou desconhecia.
Ele partiu como chegou. Nunca mais o viu.
Reabrindo os olhos lentamente, fitou o local em que esteve imersa durante o dia
inteiro. Não havia mais o cheiro. A brisa havia acabado. Foi interrompida por
um tom de repreensão pouco amigável:
- Dona Elvira, hora de entrar! Já
anoiteceu! E empurrando a cadeira de rodas à funcionária levou-a para a cama,
deitou-a e acenando um breve “boa noite” saiu batendo a porta.
Antes de desligar o abajur, Elvira pega o porta retrato na mesinha de
cabeceira. Nele o único retrato do filho ainda criança com um lindo sorriso no
rosto e olhos verdes incandescentes. Sorri sozinha e abraça a fotografia. O
passado era o único que ainda vinha visitá-la. E era tudo de que ela precisava.

Este comentário foi removido pelo autor.
ResponderExcluirAmei!
ResponderExcluirObrigada Elisa!
ExcluirRita ,minha amiga, olhei para a foto da senhora a janela, e já né veio o Alzheimer a mente. Conto maravilhoso, os Jobs momentos continuam a fazer eco e dar sentido a vida dessa mulher que agora vive ali solitária. O que importa é ter amado é ter se permitido viver a fantasia. . parabéns. Tua escrita e afetiva e verossímil.
ResponderExcluirObrigada amiga Magaly pelo carinho e pela força
ExcluirQuerida amiga, lindo conto,já me vi sentada no lugar do personagem...Memórias...Que seria de nós sem tê-las?Eu adorei.Nele senti um pouquinho da sua sensibilidade. Bjs
ResponderExcluirObrigada amiga!
ExcluirEsse conto me pegou... Fiquei emocionada, pensando como a vida passa rápido e o que pode sobrar no futuro são apenas as lembranças dos momentos felizes ou enebriantes do passado, como o do conto. De uma sensibilidade ímpar, seu texto. Parabéns!
ResponderExcluirObrigada amiga...lembranças são eternas
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