O MEL DA SERVIDÃO
Todo dia era tudo sempre igual. Coletar
néctar e pólen, construir favos de cera, produzir mel e defender a colmeia.
Tudo isso é repassado de geração para geração sem nenhuma alteração ou risco de
não acontecer, ou de haver qualquer falha. Numa colmeia existem três tipos de
abelhas: a rainha, responsável pela reprodução; os zangões, machos cujo papel é
fecundar a rainha; e as operárias, fêmeas que realizam a maioria das tarefas.
Doroteia, uma abelha-operária bisbilhoteira, questionava essas ordens invisíveis.
Por que sou obrigada a limpar as células da colmeia e do ninho? Por que
tenho que construir os favos de cera onde serão armazenados o mel e o pólen?
Por que coletar o néctar e as resinas das plantas? Por que tenho que defender a
colmeia contra intrusos e predadores? Suas indagações e porquês seguiam na
mesma ordem da exaustão, onde suas questões individuais não mudavam em nada a
razão do todo. Resolveu analisar suas amigas laborais. Precisas e na mesma
ordem de funções: limpeza, nutrição, construção, forração e guardiãs. Será
que elas pensam igual a mim ou têm medo de falar ou insubordinar a abelha
rainha? E quem era essa rainha? Por que esse poder se nunca poderemos
alcançá-la ou sequer vê-la? Quem distribuiu essas funções? Somente ser
fecundada pelos zangões e colocar milhares de ovos parece ser minimamente
cansativo, não é? Dizem que ela é obrigada a manter a ordem social e que,
através da vibração de feromônios, inibe o desenvolvimento de novas rainhas e
controla o comportamento das operárias. Além disso, é alimentada com a geleia
real e mantém a colônia organizada, assegurando a continuidade e o crescimento
do enxame.
Doroteia,
mediante todos esses questionamentos, resolveu mudar o ritmo do curso habitual.
Pensava e matutava diariamente sobre como executar seu plano. Se iria primeiro
cortar esse tal de feromônio; ou exterminaria os ovos germinados; ou poderia
interromper o voo nupcial da rainha, ou executaria cruelmente os zangões no
momento do acasalamento, impedindo a coleta do esperma necessário para
fertilizar os ovos; ou envenenaria a geleia real... Mas para que tudo isso
acontecesse, precisaria de uma grande equipe ou de centenas de milhares de
colegas operárias. Convocou uma reunião geral e resumiu suas expectativas e
propostas de mudanças num discurso de persuasão:
-
Minhas camaradas, precisamos unir forças para acabar com essa hegemonia e nos
rebelarmos contra esse trabalho alienado e sem significado, resultando na perda
da nossa essência e no sentimento de impotência e desumanização!
- Como
assim? Uma delas respondeu prontamente. Você está maluca, Doroteia? Nunca
poderemos romper esse ciclo. E o sustento das pessoas?
- Você acredita
que simplesmente rompendo a cadeia suas angústias e aflições diminuirão? Qual
seria sua continuidade na Terra? E a destruição do sustento? Retrucou outra.
Uma
enxurrada de zunidos, aplausos misturados a vaias, interrompeu qualquer forma
de diálogo. Doroteia interveio com firmeza nos argumentos e justificativas
lógicas e fundamentadas:
- Andei
estudando sobre uma teoria em que o trabalhador se torna estranho ao seu
trabalho, ao produto que cria a si mesmo, devido à propriedade privada e à
organização capitalista do trabalho. O trabalhador perde o controle sobre o seu
próprio esforço, não reconhece o fruto do seu labor como seu e sente-se
estranho no processo de produção, sendo forçado a realizar tarefas repetitivas
e sem significado, perdendo sua essência humana. Vocês não se sentem impotentes
e desumanizados nesse trabalho alienado?
Algumas e poucas abelhas sentiram-se tão profundamente tocadas com essas
reflexões que abaixaram as cabeças num misto de respeito e vergonha de si
mesmas. Nunca haviam sequer imaginado a possibilidade e a capacidade
para as mudanças. Mas o consenso não era geral. A esmagadora maioria se
revoltou, alegando que mudar o ciclo vital da produção das abelhas e do mel até
a extração era um trabalho de esforço do grupo, realizado por milhares da
espécie em uma colmeia. A interrupção de caráter individualista e minoritário
afetaria toda a colônia, com diminuição da polinização, descontrole na
reprodução de plantas, acarretando menor produção de frutas, sementes e
vegetais. Sem falar no impacto do ecossistema, na segurança alimentar, já que
as abelhas não são importantes apenas à produção do mel, mas também dos
subprodutos como pólen, própolis e cera.
A situação se agravou. A discussão calorosa e o burburinho geraram uma vibração
desordenada nos receptores químicos e mecânicos das antenas das abelhas,
desviando-as da navegação e compreensão do ambiente, chocando-se umas com as
outras. Os zangões escudeiros, como forma de proteger a rainha, armaram-se de
flechas com pontas de ferrão e, num ímpeto de combate à degradação da
existência, à alienação da qual a jovem Doroteia desconectou-se do significado
e da capacidade de sustentação de suas vidas, alvejaram-na impiedosamente. As
perfurações foram certeiras. Num último suspiro antes de sucumbir, Doroteia
experimentou uma sensação de destino eminente, como uma espécie de metamorfose
literal: na próxima encarnação, quero nascer um SER HUMANO.

Pobre Doroteia querer ser um ser humano. Numa crise existencial perdeu a potência de si mesma. Adorei o conto, penso que no momento que se referia só trabalho deveriZ retirar a palavra humano, pois se trata do trabalho das abelhas. .. uma abelha em si , sua forma de existência e de repetição de tarefas, parte de uma organização ímpar. Nos nomeamos a rainha de rainha a partir de nossa forma de e ustsncia. Já as abelhas vivem numa complementaridade. Nosso olhar etnocentrico é vivido pela livre Sorveteria que perdeu se literalmente.
ResponderExcluirObrigada pelas dicas e interpretação querida amiga
ExcluirBastante interessante esse texto sobre a organização social das abelhas e o inconformismo deve existir em quaisquer grupos,em parte deles.Vc atribuiu certas características humanas às abelhas enquanto seres pensantes,capaz de analisar e questionar os porquês.Gostei disso.
ResponderExcluirSim, amiga....digamos uma crítica social...obrigada
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