MEU SANGUE, SÓ MEU.
Foi criado conforme a
maioria da sua geração. Uma época em que a moral e os bons costumes eram os
alicerces de uma boa educação. Estudou em colégio de padres, interno e isolado
do convívio familiar, rezando, ajoelhando no milho a cada traquinagem ou
apanhando de vara de marmelo quando não executava suas obrigações diárias com
esmero, tais como lavar, passar, além de ajudar na cozinha da instituição como
garantia de bolsa escolar. Começou a trabalhar tenro ainda para ajudar nas
despesas domésticas de uma família modesta do interior. Sua vida era trabalho e
igreja. Foi ali que conheceu Lis, tímida, frágil e carola, que, como a flor
propriamente dita, parecia que ia se quebrar facilmente. Uniram-se em matrimônio
e, após alguns anos de relacionamento monótono e rotineiro, tiveram um filho e
a ele deram o nome de Gabriel, homem e fortaleza de Deus.
Gabriel cresceu sobre fortes ideais
tradicionais e religiosos, mas sempre dava um jeito de transgredir qualquer
espécie de padrão cultural ou de gênero, preferindo brinquedos, roupas e
brincadeiras associadas ao sexo feminino. Quando os trejeitos e inconformismos
não se encaixavam mais nos padrões heteronormativos, começaram as surras e os
castigos. O pai, antes apenas observador, passou a ser violento e cruel diante
da aberração que via no filho se transformar muito rapidamente. Vociferava
veneno e gritos atravessavam a casa como trovões: “Você me envergonha!”.
Deixava claro o que esperava do filho, um homem bruto, herdeiro de sua rigidez.
A mãe nada dizia ou fazia, apenas chorava a cada ciclo de violência física e
psicológica.
Um dia, já adolescente, numa fase de
descobertas entre si e o outro, incluindo os primeiros contatos afetivos e
sexuais, Gabriel revela o segredo que guardava a tanto tempo, com medo da
reação e rejeição: ele assume que é gay. O pai reage com descrença, choque e
uma profunda tristeza, acreditando que o filho está perdendo a chance de uma
vida normal. Imediatamente o expulsa de casa, aos prantos da mãe desesperada: “Você não é meu filho, moleque frouxo.
Melhor morto do que isso!”. E cuspiu no chão, como uma forma de nojo pela
existência do herdeiro.
O tempo foi corroendo o que restava
de Gabriel. Ele crescia para longe do pai e o mesmo envelhecia em seu ódio. Não
teve amor paterno, teve carcereiro. Carregou cicatrizes invisíveis, a vergonha
que lhe foi imposta, a sensação de que amar era crime. A cada passo a sensação
de ser um intruso na própria caminhada. O que o mantinha vivo não era o amor
dele, mas o desejo de sobreviver para contraria-lo. Um dia a notícia chegou: o
pai estava doente e já sem forças. Foi visita-lo por obrigação, não por amor.
Encontrou um homem reduzido à pele e ossos, mas ainda assim com os olhos cheios
de rancor. Ele tentou falar. Tentou arrancar do filho mais uma vez a confissão
de quem ele era: “Você... ainda... com
esses homens?”. Gabriel apenas disse sim, com firmeza, sem medo. Quis que
fosse a ultima coisa que ele ouvisse. Num esforço, como se ainda quisesse pedir
perdão, o pai se aproximou e sussurrou: “Você
é a vergonha do meu sangue.” Gabriel o encarou fixamente no âmago da sua
existência: “Então que seu sangue
apodreça sozinho – o meu é só meu!”.

Narrativa contundente . E pensarmos que ainda hoje encontramos esse sentimento de ódio acirado pelo outro diferente. Quando a humanidade cai se abrir para o conceito que somos únicos. Frases curtas e marcantes. Final surpreendente.
ResponderExcluirObrigada amiga..sempre me incentivando!
ResponderExcluirConto bastante atual e num país culturalmente preconceituoso deve ocorrer essa situação com frequência. Daria para aumentar o texto explorando o sentimento do filho,de rejeição, exceção, do diferente.Eu gostei.
ResponderExcluirSim, amiga...um assunto que pode ser bem extenso!
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