O PESO INVISÍVEL

 

      

        

         Laura acordava todos os dias às seis e quarenta e cinco. Tomava café olhando as notificações do celular, respondia mensagens e às sete e meia já estava conectada. Nunca soube quando começou a viver no automático, talvez tenha sido quando o dia se transformou em tarefas concluídas. A pandemia havia terminado há algum tempo, mas o isolamento ficara como uma sombra: corpo em casa, mente na empresa. Cada um na sua tela, cada voz ecoando dentro dos fones. A mesa virou escritório, o sofá virou refeitório e a imagem refletida na câmera uma espécie de janela para o mundo. Os colegas pareciam existir só do pescoço para cima, o resto, o que era humano, ficava de fora. Falava com dezenas de pessoas por dia, todavia nenhuma estava de fato presente de corpo e de espírito. Ela gostava do que fazia, mas sentia uma espécie de vazio difícil de nomear, uma espécie de cansaço de um silêncio que se instala quando finalmente ficava sozinha no final do expediente. Os finais de semana eram uma tentativa frustrada de descanso, pois o corpo parava e a mente estava sempre alerta. Não se lembrava da última vez que havia sentido o vento no rosto sem olhar o relógio, e o som constante das notificações lembrava que o mundo não perdoa quem fica “off-line”.

           Um dia, após uma noite inteira revisando relatórios, Laura sentiu uma dor insistente no peito e uma leve taquicardia. Sentiu-se sufocada de ar, de espaço, de sentido da vida. Resolveu caminhar um pouco, desligou o computador, calçou um tênis e saiu sem destino. Andou sem pressa pelas ruas, olhando vitrines, lojas, transeuntes, carros e tráfego. Parecia estar vendo tudo pela primeira vez e percebeu como anos de hiperconectividade desequilibraram as suas interações virtuais e reais. A constante enxurrada de informações e pressão para ser produtiva sobrecarregou seu cérebro, mantendo seu corpo em alerta. A solidão e o isolamento intensificaram a sua ansiedade e a liberdade limitada da diversidade de pensamento gerou a dificuldade de lidar com o ócio e a capacidade de se fazer presente. Tudo parecia muito mais claro agora, afastada da tecnologia. Absorta nos seus pensamentos e sensações avistou uma pequena livraria, quase escondida. O ar ali tinha cheiro de papel e de tempo. Um senhor de voz calma perguntou se ela procurava algo.

        - Não sei, ela respondeu. Acho que estou procurando uma pausa.

     Ele sorriu e lhe entregou um livro fino, de capa azul, chamado “O Ofício de Respirar”. Laura sentou-se na pequena banqueta próxima à janela e começou a ler. As frases eram simples e a atravessavam como uma luz:

       “Quem vive apenas para produzir, acaba se tornando produto.”

       Fechou o livro e, por um instante, só observou as pessoas passando pela rua, cada uma com sua pressa, cada uma sozinha dentro de si. Sentiu vontade de ficar ali para sempre, entre o barulho da cidade e o silêncio de dentro. Comprou o livro. Voltou para casa após uma hora. No computador, dezenas de mensagens piscavam e, pela primeira vez, ela não correu. Preparou um café com calma, colocou uma música, olhou pela janela. E decidiu que todos os dias, antes de trabalhar, leria uns capítulos de qualquer livro. Leu de Dostoievski até Franz Kafka, de Virgínia Woolf a Stephen King e de J.K. Rowling a Haruki Murakami. 

       Com o tempo, os colegas começaram a notar:

       - Você anda diferente, mais tranquila... qual o segredo?

       Laura sorri e responde:

     - Descobri que o sucesso não mora no trabalho, mas no intervalo entre uma respiração e outra.

       E desde então, nunca mais começou o dia sem antes se lembrar de ler.

     

Comentários

  1. Rita , viver no automático alho que essa vida virtual tem como um sintoma. A leitura existe, ois precisamos dela para tudo. Mas a literatura sim, essa é a fonte da renovação. Muito bem escrito e nos faz refletir sob automações que as vezes nem nós tamos conta, mas que já nos roubaram o cotidiano.

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  2. Adoro seus textos! São interessantes e atuais. Uma leitura deliciosa. Continue sempre, não esconda esse talento. Bjs

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  3. Gostei mto.A pandemia nos modificou sim,mts se isolaram trabalhando de casa.Eu felizmente já estava aposentada.Tds os dias caminhava e conversava pela manhã, de máscara, claro.Mas mts pessoas até piraram com o isolamento,o único contato pela Internet.Mas a leitura,essa nos conecta com o mundo,real ou fantasioso.Mto bom o seu conto.Bjs

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  4. Texto excelente, que me fez pensar. Tenho dias de trabalho remoto, mas não gosto. Prefiro estar no presencial, estar com as pessoas e sentir a vibração da vida. Conto bem atual.

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  5. Rita, realmente depois da pandemia as pessoas estão sem rosto. As telas tomando conta dos papos olho no olho, vida real. É uma pena. Parabéns querida.

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