O PESO INVISÍVEL
Laura acordava todos os dias às seis e quarenta e cinco. Tomava café olhando as notificações do celular, respondia mensagens e às sete e meia já estava conectada. Nunca soube quando começou a viver no automático, talvez tenha sido quando o dia se transformou em tarefas concluídas. A pandemia havia terminado há algum tempo, mas o isolamento ficara como uma sombra: corpo em casa, mente na empresa. Cada um na sua tela, cada voz ecoando dentro dos fones. A mesa virou escritório, o sofá virou refeitório e a imagem refletida na câmera uma espécie de janela para o mundo. Os colegas pareciam existir só do pescoço para cima, o resto, o que era humano, ficava de fora. Falava com dezenas de pessoas por dia, todavia nenhuma estava de fato presente de corpo e de espírito. Ela gostava do que fazia, mas sentia uma espécie de vazio difícil de nomear, uma espécie de cansaço de um silêncio que se instal...