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O PESO INVISÍVEL

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                            Laura acordava todos os dias às seis e quarenta e cinco. Tomava café olhando as notificações do celular, respondia mensagens e às sete e meia já estava conectada. Nunca soube quando começou a viver no automático, talvez tenha sido quando o dia se transformou em tarefas concluídas. A pandemia havia terminado há algum tempo, mas o isolamento ficara como uma sombra: corpo em casa, mente na empresa. Cada um na sua tela, cada voz ecoando dentro dos fones. A mesa virou escritório, o sofá virou refeitório e a imagem refletida na câmera uma espécie de janela para o mundo. Os colegas pareciam existir só do pescoço para cima, o resto, o que era humano, ficava de fora. Falava com dezenas de pessoas por dia, todavia nenhuma estava de fato presente de corpo e de espírito. Ela gostava do que fazia, mas sentia uma espécie de vazio difícil de nomear, uma espécie de cansaço de um silêncio que se instal...

AS CAUSAS IMPOSSÍVEIS

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          Minha mãe não era de abraços. Tinha a voz firme, o olhar severo e uma fé que parecia estar sempre à beira do sacrifício. Falava muito, alto, discutia, gritava e, quando não suportava a pressão, batia a cabeça contra a parede. Vivia repetindo frases prontas: “Deus escreve certo por linhas tortas”; “Deus ajuda quem cedo madruga”, “Deus dá o frio conforme a roupa”. E eu, pequena curiosa, tentava decifrar toda essa providência divina e misteriosa.         Abdicou da profissão quando o primeiro filho nasceu. Carregava isso como uma condição de renúncia, não apenas da vida laboral, mas de todos os seus desejos e ambições de forma involuntária. Depois vieram cinco outros filhos, em intervalos curtos, a cada retorno do pai a casa. Deu a cada um o nome composto de um santo, numa espécie de homenagem, devoção ou até de esperança de que pudéssemos seguir os passos de fé sagrados: José, Ávila, Teresa, Maria (com repetições). Eu fiqu...

MEU SANGUE, SÓ MEU.

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                              Foi criado conforme a maioria da sua geração. Uma época em que a moral e os bons costumes eram os alicerces de uma boa educação. Estudou em colégio de padres, interno e isolado do convívio familiar, rezando, ajoelhando no milho a cada traquinagem ou apanhando de vara de marmelo quando não executava suas obrigações diárias com esmero, tais como lavar, passar, além de ajudar na cozinha da instituição como garantia de bolsa escolar. Começou a trabalhar tenro ainda para ajudar nas despesas domésticas de uma família modesta do interior. Sua vida era trabalho e igreja. Foi ali que conheceu Lis, tímida, frágil e carola, que, como a flor propriamente dita, parecia que ia se quebrar facilmente. Uniram-se em matrimônio e, após alguns anos de relacionamento monótono e rotineiro, tiveram um filho e a ele deram o nome de Gabriel, homem e fortaleza de Deus.       ...

ESCREVENDO & SANGRANDO

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  Quando eu soltar a minha escrita por favor, entenda, que palavra por palavra é um pedaço de mim se entregando. Tinta no peito, alma aberta, vou sangrando são as batalhas com a minha caneta Que eu vou narrando. Quando eu rasgar o silêncio da página com a força da expressão, tudo aquilo que você ler saiba: é a vida escorrendo. Veja o brilho cansado nos meus olhos, e o tremor que mancha a letra, com o suor umedecendo o papel, transbordando toda raça e emoção. E se eu errar e o borrão emaranhar meus sentimentos, não se espante — leia, pois o teu contemplar é minha força para narrar. Quando eu soltar a minha escrita, Por favor, entenda, É apenas o meu jeito de dizer O que é criar. *Paródia de “Sangrando", Gonzaguinha

O MEL DA SERVIDÃO

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            Todo dia era tudo sempre igual. Coletar néctar e pólen, construir favos de cera, produzir mel e defender a colmeia. Tudo isso é repassado de geração para geração sem nenhuma alteração ou risco de não acontecer, ou de haver qualquer falha. Numa colmeia existem três tipos de abelhas: a rainha, responsável pela reprodução; os zangões, machos cujo papel é fecundar a rainha; e as operárias, fêmeas que realizam a maioria das tarefas. Doroteia, uma abelha-operária bisbilhoteira, questionava essas ordens invisíveis. Por que sou obrigada a limpar as células da colmeia e do ninho? Por que tenho que construir os favos de cera onde serão armazenados o mel e o pólen? Por que coletar o néctar e as resinas das plantas? Por que tenho que defender a colmeia contra intrusos e predadores? Suas indagações e porquês seguiam na mesma ordem da exaustão, onde suas questões individuais não mudavam em nada a razão do todo. Resolveu analisar suas amigas ...

O ALMOÇO

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            Sentada na varanda da solidão, Elvira observava e sentia a hora da brisa da tarde. O asilo era silencioso àquela hora, com vozes baixas e passos lentos atrás das janelas. A cadeira de rodas onde se recostava rangia como um sussurro antigo. Ninguém a visitava. O filho morava no exterior - Nova Zelândia ou Noruega, ela já não lembrava mais com exatidão. Pagava todas as despesas, conforme o staff local informava e às vezes mandava uma mensagem curta e impessoal do tipo “estou ocupado, quando der telefono”, coisa que nunca aconteceu. Visitas? Nunca.      Na memória de Elvira, o tempo se dobrava como uma toalha de mesa velha manchada de lembranças. Ela revivia aquele dia conforme o vento leve e agradável soprava e o cheiro da mata a inebriava. Preparara um almoço para alguém especial, convidado do marido, pequeno agricultor, humilde e rude. O homem que viera cuidar dos negócios da região, designado pelo governo, a fim de aconse...

O SAPO CURURU

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       Não me lembro da primeira morada da minha vida. Com três anos de idade, após transferência do pai militar navegamos (sim, viemos de navio!) do nordeste para o sul do Brasil. Foram mais de quinze dias brincando pelo convés com meus irmãos mais velhos, a fim de não sucumbir na cabine com a mãe grávida vomitando o quarto filho e a alma toda, tanto quanto as ondas e as tempestades recorrentes. Após essa cansativa travessia até Porto Alegre pegamos um trem para Santa Maria, onde o encantamento e o fascínio começaram a brotar na minha existência. A paixão pelo universo ferroviário e a conexão com a Maria Fumaça, minha fiel escudeira e companheira de viagens nas centenas de idas e vindas à residência dos avós.       A casa era muito simples e de madeira. Ali no pequeno espaço dividido entre cinco moradores, avós, tias e tio, acomodaram mais um casal e três crianças pequenas. Acampamos na sala. Lembro perfeitamente da divisão dos cômodos e d...